Rádio Alfa de Paris onde se vive Portugal

Os posters da selecção portuguesa afixados nas paredes da minúscula redacção não deixam dúvidas: esta é uma rádio onde se vive Portugal. A Rádio Alfa nasceu há 20 anos, em Paris, e desde então que serve de voz de intervenção da comunidade portuguesa na Cidade Luz. O que, se atendermos a que a região de Paris tem cerca de 700 mil portugueses - a segunda maior área metropolitana de "Portugal", a seguir a Lisboa -, dá à Alfa "quase a dimensão de uma TSF", diz Manuel Alexandre, o jornalista que assegura toda a informação desportiva da rádio.

Manuel nasceu em Portugal e começou a fazer jornalismo na Rádio Bombarral quando uma relação amorosa o levou a rumar a Paris no início da década de 90. "Vim para trabalhar nas obras e depois, em Setembro de 1995, entrei para a Rádio Alfa." Sim, porque a Alfa também se orgulha de ser uma fonte de emprego (ainda que pequena) para a comunidade portuguesa. Isabel Oliveira é a mais recente: recepcionista há cerca de um mês, entrou "uns três dias depois de ter mandado o currículo para cá", depois de um ano desempregada, ela que fez o curso de Línguas na Universidade do Porto e também decidiu regressar à França natal - de onde tinha saído em 1985, com dez anos -, por razões do coração.

O futebol é, como não podia deixar de ser, o campo onde mais se exacerba o sentimento de "portugalidade". "É o que os portugueses de cá mais querem saber. A actualidade dos clubes, os jogos, tudo o que mexe no futebol em Portugal." Daí que o futebol ocupe grande espaço da antena da Alfa. Durante a semana, a rádio transmite, em simultâneo, os noticiários de desporto da Antena 1, e ao fim-de-semana, ainda ao abrigo do protocolo com a rádio estatal portuguesa, todos os jogos da liga portuguesa podem ser ouvidos em Paris. Depois, há os jogos do Creteil, cuja sede é paredes meias com a rádio num edifício erguido nas fronteiras de Creteil com Valenton, na periferia de Paris, pelo actual proprietário, o empresário português Armando Lopes. Os relatos da equipa treinada por Artur Jorge são bilingues - em português e francês. O PSG, que tem uma grande faixa de adeptos lusos, merece também destaque nas ondas da Alfa. Especialmente Pauleta, claro está.

O PSG-Benfica é, por isso, o grande acontecimento. "Desde que se soube do jogo, os telefones da rádio não param. Todos os dias há gente a perguntar se temos bilhetes para o jogo. Uma loucura", conta Manuel Alexandre. Sim, porque a ligação da Alfa com a comunidade portuguesa ultrapassa em muito o simples serviço de rádio. "As pessoas ligam para saber de voos, de legalização de documentos... hoje de manhã, por exemplo, ligaram para aqui para perguntar por agências funerárias", ilustra Artur Silva, um dos dois jornalistas que se mantêm na rádio desde a sua fundação, em 1987. A Alfa, como orgulhosamente glosam os seus jornalistas (quatro no total), é "a embaixada".

Mas esta ligação umbilical com a comunidade emigrante tem o reverso da medalha, como faz notar Artur, "um refractário do exército" em 1971, "com tudo o que isso implica", diz. "Estive cinco anos cá sem documentos, a arriscar-me a ser expulso a qualquer momento e mandado para uma cadeia em Portugal". Artur entrou na equipa inicial da Alfa, mas lamenta o estigma que se mantém. "Ainda somos vistos como 'os portugueses', não como jornalistas como quaisquer outros." E alerta para a necessidade de actualizar o conceito da "portugalidade". "Para muitos dos nossos ouvintes, Portugal continua a ser o país que eles deixaram na década de 60, do folclore e do garrafão, da Amália... Não cortaram o cordão umbilical. Quando trouxemos cá o Le Pen nas últimas presidenciais, choveram telefonemas de protesto", critica. A Rádio Alfa precisa, também ela, de se repensar para sobreviver: "Há portugueses de segunda e terceira gerações que já não falam português. O país deles é a França."

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