O primeiro carteiro do Canadá era português

A iniciativa partiu do único deputado português no parlamento federal canadiano, Mário Silva, que propôs um monumento a Pedro da Silva, o primeiro correio oficial canadiano. "O objectivo da minha iniciativa legislativa é poder sensibilizar o Parlamento canadiano para o facto do contributo dos portugueses neste país, através da evocação do primeiro carteiro oficialmente reconhecido no Canadá. Criando um monumento ou Parque Nacional com o nome Pedro da Silva", referiu aquele parlamentar.

Mário Silva, deputado em Otava pelo partido Liberal, vai em breve introduzir este projecto-lei na Câmara dos Comuns e "a sua aprovação vai depender apenas da complicada burocracia parlamentar", assegurou ontem ao DN o seu chefe de gabinete.

"É para mim uma honra introduzir este projecto-lei que reconhecerá o feito significativo de Pedro da Silva em ser reconhecido como o primeiro carteiro do Canadá, então a Colónia de Nova França", disse ainda Silva ao DN

Pedro da Silva, o primeiro carteiro oficial do Canadá, era português e foi também o primeiro cidadão luso a chegar ao Quebeque. Por volta de 1705, Silva assegurava a tarefa inédita de entregar cartas e pacotes postais entre Montreal e Quebec City, "quase sempre a pé, outras vezes de carroça puxada por dois cavalos ou bois", disse em ao DN Bianca Gendreau, curadora do Canadian Museum of Civilization.

Gendreau acrescentou ainda que "os Serviços Postais do Canadá lançaram, em 2003, um selo em homenagem a Pedro Silva, mas infelizmente sem a sua efígie, já que até hoje nenhuma imagem sua é conhecida, e também não sabemos muito sobre a sua vida. Temos apenas alguns conhecimentos nebulosos e outros mais concretos tais como a certeza de que era pago 20 soldos por cada serviço (mais ou menos uma libra inglesa) pelo Intendente da Nouvelle France", região que compreendia o actual Quebeque e outras províncias do actual Canadá.

Pedro da Silva, o carteiro da Nova França, nasceu em 1647 na antiga freguesia de S. Julião, em Lisboa. Na Colónia da Nova França, onde chegou antes 1673, era conhecido como "Le Portugais", e aí trabalhou vários anos como carteiro. Mais tarde mudou-se para Sault-au-Matelot, na baixa de Quebeque City, tendo negociado no despacho postal de vários produtos. Sabe-se que no extremo quente verão canadiano, ele viajava de barco, enquanto nos rigorosos invernos canuki "enfrentava com bravura as temperaturas frias para entregar o correio num carro puxado por cavalos ou bois. Documentação datada de Julho de 1693 comprova que da Silva foi pago 20 soldos (o que representava mais ou menos uma libra inglesa) para levar um pacote de cartas de Montreal à cidade de Quebeque". Está provado pelos arquivos dos Canadian Post que, em 1705, da Silva "recebeu uma carta de comissão, assinada pelo Intendente da Nova França, Jacques Raudot, incumbindo-o da função de 'primeiro correio' da Nova França, tendo sido ainda contratado para levar mensagens do governador do Canadá, entre as cidades de Quebeque e Montreal". |

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.