O presidente que assistiu à passagem da RTP a cores

A televisão portuguesa está de luto. "Foi uma das personalidades mais marcantes da história da televisão, com uma personalidade cativante, com grande bonomia e espírito de humor", afirmou ontem o deputado socialista Arons de Carvalho, no dia em que faleceu João Soares Louro, 14.º presidente da RTP, aos 74 anos, vítima de doença prolongada, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Figura incontornável do meio audiovisual, João Soares Louro encontra-se em câmara ardente numa das capelas do Mosteiro dos Jerónimos desde as 17.00 de ontem, realizando-se o funeral hoje, pelas 16.00, para o cemitério dos Olivais.

"Foi o responsável pelo espírito profissional e independente da RTP", disse Miguel Sousa Tavares, jornalista que se iniciou na estação pública pela mão do antigo presidente, quando este criou o Centro de Formação da RTP. "Sobretudo, ele acabou com o círculo infernal de se contratar jornalistas segundo a informação dos partidos", acrescentou o comentador.

Na altura em que assumiu o cargo máximo da televisão pública, entre 1978 e 1980, João Soares Louro redimensionou e reequipou a estação estatal, tendo também contribuído para o seu reequilíbrio financeiro. Criou a Radiotelevisão Comercial e o Grupo Editorial da Empresa TV Guia. Obra que lhe valeu ontem o elogio de "cidadão empreendedor que se destacou pela causa pública" pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

"Foi o homem que deu um grande impulso à RTP", disse Luís Andrade, ex-director de programas da RTP. "É a ele que se deve a autonomia da RTP2, que ficou com uma melhoria significativa da programação", explicou Arons de Carvalho. Foi uma das pessoas que "melhor" e "mais cedo perceberam" a importância dos canais generalistas no serviço público de televisão, acrescentou o ministro Augusto Santos Silva.

Mas os dois anos em que João Soares Louro esteve na presidência da RTP ficam também marcados pela passagem das emissões a preto e branco para cores, pela compra da sede na Av. 5 de Outubro, com a aposta em estúdios próprios para a informação, bem como pela compra de carros de exteriores com tecnologia avançada.

Natural de Faro, entrou para a RTP com 24 anos, como escriturário, tendo os mais variados cargos. Em 1976, destacou-se enquanto deputado socialista, chegando a ser, posteriormente, subsecretário de Estado para a Comunicação Social, no I Governo Constitucional, então liderado por Mário Soares (95-02).

No início da década de 90, ocupou o cargo de presidente da RDP, durante o qual foi responsável pela privatização da Rádio Comercial. Também nessa altura, iniciou a actividade docente na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e na Universidade Nova de Lisboa.

Recordado pelo grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, como um "grande maçon a quem Portugal e a televisão portuguesa muito devem", Soares Louro ajudou os militares que ocuparam a RTP na manhã de 25 de Abril de 1974 a colocar a emissão no ar, "ainda era incerto o desfecho vitorioso da revolução". Ocupou ainda o cargo de provedor da Qualidade do Parque das Nações, desde 1999, e, actualmente, João Soares Louro destacava-se enquanto militante socia- lista e membro do Conselho de Administração da Parque Expo, cargo que mantinha desde o ano passado.

Vítima de dois acidentes vasculares cerebrais entre Dezembro e Fevereiro, o último levou-o à Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Maria, onde permaneceu dois meses, até ontem. *Com Lusa

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