O genro congolês do sr. Teixeira que vem passar uns meses a Portugal

Aos 44 anos, o líder da oposição congolesa, Jean-Pierre Bemba, dificilmente poderia ir viver para outro país que não Portugal. Candidato derrotado por Joseph Kabila nas presidenciais da República Democrática do Congo (RDC), Bemba é casado com a portuguesa Liliane Teixeira, com quem tem cinco filhos: dois rapazes e três raparigas. Todos inscritos e registados no Consulado de Portugal em Kinshasa. À semelhança do que sucede com Liliane.

O que talvez explique as razões porque alguns dos seus adversários aludem, de tempos em tempos, à suposta dupla nacionalidade de Bemba, tentando denegrir as capacidades do líder do Movimento de Libertação do Congo (MLC) para liderar o país. Mas, não: ao que o DN apurou, Jean-Pierre Bemba não é portador de passaporte português, nem tem nacionalidade portuguesa.

Ao contrário do que sucede com os filhos e, sobretudo, com a mulher, que é filha de um português, natural de Trás-os-Montes, que emigrou para o Brasil, antes de se mudar de armas e bagagens para o ex-Zaire. Daí que Liliane e a família se tenham habituado ao Algarve e à Quinta do Lago, onde viveram, quando Bemba optou pelo exílio, pouco depois da queda de Mobutu Sese Seko.

Nascido em 1962, na província do Equador, Jean-Pierre Bemba é filho do multimilionário Jeannot Bemba Saolona, que presidiu à confederação patronal do Zaire e que sempre foi muito próximo de Mobutu. Ao ponto de uma das suas filhas ter casado com um dos filhos do antigo ditador. Razão pela qual Bemba é cunhado de Nzanga Mobutu, sem que isso os tivesse impedido de serem adversários nas presidenciais, levando, depois, Nzanga a apoiar Kabila, em detrimento do senador do MLC.

Rivalidades facilmente explicáveis, uma vez que tanto, como outro, disputam a liderança da província do Equador, o antigo reduto de Mobutu, de onde poderiam ser catapultas para a liderança da RDC.

Licenciado em Ciências Económicas por uma universidade belga, Jean-Pierre Bemba tirou ainda um MBA, antes de regressar a Kinshasa, no início dos anos 90, para se dedicar, de imediato, ao mundo dos negócios (telecomunicações e media), seguindo o exemplo de dois empresários que ele tinha como modelo: o italiano Silvio Berlusconi e o francês Bernard Tapie.

Com a subida ao poder de Laurent Desiré-Kabila (o pai do actual Presidente da RDC), Bemba opta pelo exílio. É, nessa altura, que Liliane e os filhos passam a viver longas temporadas em Portugal. O que se acentua em 1998, quando o marido avança para a criação do MLC e do Exército de Libertação do Congo. Apoiado pela Líbia, pela República Centro-Africana e, sobretudo, pelo Uganda e Ruanda, que já se tinham incompatibilizado com Kabila, depois de o terem ajudado a subir ao poder em Kinshasa.

É dessa época que datam também as acusações de canibalismo que a ONU fez às milícias do MLC.

Com os acordos de paz de 2002, Jean-Pierre Bemba assume uma das quatro vice-presidências da RDC, um cargo que só viria a abandonar no final do ano passado, na sequência da sua derrota nas eleições, apesar de ter vencido em quase metade das províncias do país. Incluindo Kinshasa, de onde os seus adversários o querem afastar agora. Sob pena de Bemba correr sérios riscos de vida, a avaliar pelos combates que sacudiram a capital congolesa e que, há duas semanas, o levaram a refugiar-se na embaixada sul-africana.

De onde só voltará a sair para entrar no seu próprio avião com destino ao Algarve, tendo como pretexto necessidade de ser submetido a um tratamento médico urgente. Que irá demorar o tempo que diplomacia julgar necessário.

Ler mais