Na casa do Sr. Policial

"Bem-vindos à casa do terror." A voz tem o tom de 60 anos de tabaco, a gargalhada é rouca. O sorriso, um convite a entrar. Sem medo. António Andrade de Albuquerque cultivou o mistério como modo de vida. Diz que é um micróbio que nasceu com ele e não o largou. A "casa do terror" fica na praia e dela vê-se o mar, as Berlengas e o Cabo Carvoeiro, ao fundo. Por ela trocou Lisboa já lá vão 26 anos mas o assombro que ela inspira só existe na imaginação daquele homem magro, alto, que a idade não curvou.

Aos 77 anos é um dos escritores portugueses mais internacionais. O mundo conhece-o como Dick Haskins, autor de policiais. Ele, António Andrade Albuquerque, afirma que é mais do que isso e garante que nunca se escondeu atrás de um pseudónimo. "Um escritor de policiais é capaz de escrever qualquer género. O contrário já não é verdade. Muitos tentaram e não conseguiram", diz, sentado numa velha poltrona, dias após lançar o último livro, O Expresso de Berlim (Asa). É enigma e espionagem, desta vez sem recurso a pseudónimo.

Na década de cinquenta, quando começou a editar, ninguém pegaria num policial que tivesse a assinatura de um português. "O pseudónimo foi uma exigência editorial", justifica o mais prolífico dos escritores do género. Ao contrário das aparências, Dick Haskins era português, como o foram Ross Pynn (Roussado Pinto) ou Dennis McShade (Dinis Machado). "Era shocking" um português escrever uma acção passada em Londres, com nomes internacionais e intrigas sem fronteiras.

Tinha 25 anos quando seguiu o conselho do professor de Português no Liceu Passos Manuel. António José Saraiva, "uma alma pura, jóia de pessoa", descreve-o o aluno. Ele, que lhe dizia : "Tu hás-de ser escritor." Uma reacção às suas redacções onde havia sempre boa dose de mistério. António era então estudante de Medicina, casado, pai de duas filhas, funcionário do Ministério das Obras Públicas, trabalhador estudante que numas férias escreveu um livro que, entretanto, arrumou na gaveta até que um amigo o leu. Aconselhou-o a editar e António bateu à porta do Diário de Notícias, bem perto do sítio onde vivia, na Rua Castilho. Publique-se, foi o diagnóstico. Pouco depois, a editora Ática abria-lhe as portas. "Queriam um livro por mês. Disse-lhes que escreveria dois por ano." Seja. O primeiro a sair foi O Isqueiro de Oiro. Seguiu-se O Sono da Morte. Começava um fenómeno composto de 24 títulos com tradução imediata em mais de vinte países e milhões de livros vendidos.

As letras venciam a medicina e cumpria-se uma das vocações deste homem nascido em Lisboa, a 18 de Novembro de 1929, bisneto de ingleses que fez de Londres o centro das suas acções e não esquece os dias de espionagem em Lisboa quando, aos 14, 15 anos, assistia a conspirações na Pastelaria Coimbra, esquina da Alexandre Herculano com a Mouzinho da Silveira. Vibra quando fala dessas histórias. Já havia trocado os calções pelas calças compridas e tinha autorização do pai para fumar. Eram os anos da II Guerra Mundial, "e Lisboa era, das cidades neutras, o maior centro de espionagem da Europa".

Ajudou-o a alimentar a imaginação que exercitava em folhas A4 divididas a meio. Histórias em papel e caneta que passava a limpo, à máquina, e corriam mundo. Foi assim até o filho lhe apresentar o computador, "invenção dos diabos" que não larga por nada. Está enquadrado num cenário onde se destacam três gravuras de Lima de Freitas e fotografias de um encontro de autores de policiais. Na legenda, lê-se: "Paris, Agosto de 1933." "Ali estou eu", aponta. "Estava lá também o George Simenon, mas não tenho aqui nenhuma fotografia com ele."|

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