"Cerveja Cintra tinha tudo para dar certo"

A coisa usa-se pouco do lado de cá do Atlântico. Mas, nos Estados Unidos, contar em público um negócio que correu mal enche não raras vezes plateias de universidades. É convicção dos norte-americanos que a partilha da má experiência lhes permitirá evitar cometer os mesmos erros ou cair nas mesmas esparrelas que os distintos oradores. Foi por aí que José Sousa Cintra conduziu a conversa com o DN. Escolheu aquele que diz ser "um negócio que tinha tudo para dar certo", mas que acabou por ser "aquele onde perdi mais dinheiro na minha vida". Foi em Portugal. Foi na cerveja.

"Podia ter sido um grande sucesso", afirma ainda hoje. "Não havia nenhum país na Europa que tivesse apenas duas marcas de cerveja, como era o caso de Portugal", lembra Sousa Cintra. "Senti que havia espaço para uma cerveja de grande qualidade, depois do sucesso que tinha tido no Brasil", recorda. "Fiz tudo como deve ser, uma fábrica com princípio, meio e fim, numa zona do País estratégica para a distribuição, com água para fazer cerveja do melhor que há, estudos de mercado que garantiam sucesso do produto". Então o que é que falhou? "O mesmo sindicato bancário que me tinha apoiado na construção da fábrica não me apoiou na parte de marketing e publicidade", diz. E avança com nomes. "O BCP, a Caixa [Geral de Depósitos] e o Banif, este último em menor medida, não avançaram com o que eu precisava para entrar no mercado", acusa. "E, nestes produtos de grande consumo, sem uma boa campanha de publicidade não se consegue", sustenta. "Não protegeram o cliente", remata. E o pior foi ter-se sentido impedido de contratar outros bancos "porque tinha dado àqueles a fábrica como garantia".

Não que tudo tenha sido mau na saga da Cintra. "Eu mexi com o mercado, e nessa medida beneficiei os consumidores, porque obriguei a concorrência a aumentar a qualidade." Lembra o lançamento da cerveja preta e da "mulata" que "foi imitada quase de imediato". "Mas nestas coisas é preciso manter a chama acesa", que é como quem diz, "distribuir bem e publicitar bem". E isso Sousa Cintra não conseguiu em Portugal. A história, diz, foi bem diferente no Brasil e na exportação, onde o sucesso não fugiu. Hoje, depois de ter vendido a fábrica ao empresário Jorge Armindo, espera "ainda poder receber algum dinheiro [dessa transacção] porque até agora ainda não recebi nada".

"Senti uma grande frustração", confessa Sousa Cintra. "Ainda pensei em vender uma quota do que tinha no Brasil para investir em Portugal, mas depois não deu", conta. "Foi o único projecto da minha vida em que não tive sucesso", lembra. "Muito aborrecido, fui obrigado a desfazer-me do negócio." No qual perdeu, diz, "milhões de contos". "Espero que sirva de exemplo a outros empresários que não dependem só deles", afirma.

Mas depois de a banca lhe ter tirado o tapete, os problemas acumularam-se. A equipa informática escolhida por Sousa Cintra foram "verdadeiros traidores". É com esta frontalidade que o empresário fala de uma empresa como a Novabase, que terá, nas suas palavras, "feito - e mal - o trabalho pela metade", pelo que - conta- "não lhes paguei a última fatia". "Tiveram o descaramento de pedir a falência da Cintra quando eu tinha as contas todas em dia", recorda. O processo judicial ficou famoso anos atrás, mas parece que não tem fim. "Ainda vou pedir indemnização de milhões de contos a essa gente", afirma o ex-presidente do Sporting.

Não abre o jogo sobre o que vai fazer ao dinheiro que ganhou recentemente com a venda das duas fábricas que tem no Brasil. Em tempos quis fazer um banco. Pelo menos este, se fosse seu, não lhe viraria as costas.

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