Cartas revelam crise de fé de madre Teresa de Calcutá

SUSANA SALVADORBIKAS DAS-AP (imagem)

"Na minha própria alma, sinto a terrível dor da sua perda. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que ele não existe realmente." Estas palavras, escritas por madre Teresa de Calcutá numa carta a um dos seus confessores, revelam uma profunda crise de fé. O livro Come Be My Light, que será publicado em Setembro para assinalar o 10.º aniversário da sua morte, mostra que essa crise esteve quase sempre presente nos últimos 50 anos da sua vida.

"Jesus sente um amor muito especial por ti", escreveu madre Teresa a um dos seus conselheiros espirituais, Michael Van Der Peet. "Quanto a mim, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não oiço." A carta foi escrita em Setembro de 1979, menos de três meses antes de receber o prémio Nobel da Paz, ocasião em que afirmou "Cristo está nos nossos corações".

Segundo a revista Time, que publica excertos das cartas na sua última edição, Madre Teresa estava profundamente consciente dessa discrepância que havia entre o que sentia e aquilo que expressava. "Falo como se o meu coração estivesse apaixonado por Deus. Se estivesses lá dirias: 'Que hipocrisia'", escreveu. "O sorriso é uma máscara ou um manto que cobre uma multitude de dores."

As cartas mostram que madre Teresa procurava lutar contra esses sentimentos de "escuridão", de "solidão" e "tortura", que surgiram praticamente depois de começar a cuidar dos pobres em Calcutá - após "ouvir a voz de Deus". De acordo com o padre Brian Kolodiejchuk, que edita o livro e é o responsável por recolher material para o processo de santificação da missionária, a preserverança de madre Teresa, apesar de todas as suas dúvidas, foi o seu acto mais heróico. "Apesar dos seus esforços tremendos em favor de Cristo, é mais extraordinário perceber que ela alcançou-os quando ele não estava disponível para ela", indicou à Time.|