A arte de restaurar relógios

"Nasci em cima dos relógios", brinca Luís Cousinha. Não mente. O neto do relojoeiro Manuel Francisco Cousinha, introdutor em Portugal da técnica de relojoaria mecânica de torre da era moderna, nasceu por cima da Boa Construtora - Fábrica Nacional de Relógios Monumentais do avô, no 1.º andar da Rua Capitão Leitão, em Almada. O avô morreu tinha ele 14 anos. Embora ainda tivesse muito para aprender, as férias e tempos livres passados na fábrica e com o avô ensinaram-lhe as bases. Entretanto já o pai, José de Vasconcelos Forra, sogro de Manuel Cousinha, trabalhava na Boa Construtora, mas na área da contabilidade, função que havia desempenhado no Arsenal do Alfeite (Almada).

Depois de seis anos na Força Aérea, em que todos os tempos livres eram passados na fábrica, Luís Cousinha ingressa a tempo inteiro na empresa, em 1973. "Como era filho do patrão, o meu pai exigia mais de mim e era tratado abaixo de cão. Era técnico e andava sempre na estrada", lembra Luís Cousinha. Apesar das centenas de quilómetros que tinha de percorrer para consertar relógios, de dormir muitas vezes com o gado e de ter de enfrentar populações revoltadas por verem tanto tempo os seus relógios, normalmente de igrejas e indispensáveis às suas vidas, por arranjar, o neto de Manuel Cousinha não se acanha em admitir que foi assim que aprendeu tudo. "Não aprendi nada com o meu pai, aprendi tudo com a vida", afirma, considerando-se hoje, aos 60 anos, o "único verdadeiro relojoeiro de torre em Portugal".

Luís Cousinha garante que sempre gostou de relojoaria, por ser uma profissão difícil e com muitas aventuras, mas confessa que gostaria de ter ficado na Força Aérea. Não ficou porque sabia que, se não continuasse o negócio, "mais ninguém o teria feito".

Em 1976, com 29 anos, assume a Boa Construtora, depois de o pai, "um homem do Estado Novo", se ter retirado por "não conseguir aturar os comunistas". Da fábrica, desde a sua inauguração em 1930, saíram milhares de relógios e carrilhões mecânicos de torre destinados a igrejas, monumentos e edifícios públicos em Portugal, ex-colónias ou Norte da Europa. A Boa Construtora, de Manuel Cousinha, deu lugar à actual Cousinha Lda. e os relógios mecânicos (que desde os anos 80 deixaram de fabricar) aos sistemas computorizados. A Cousinha dedica--se ao restauro de todo o tipo de relojoaria de torre que ainda subsiste, grande parte construída por Manuel Cousinha, bem como à importação, instalação e reparação de sistemas computorizados. Adequando-se aos tempos, possui ainda um departamento informático, onde se repara computadores. As antigas instalações em Almada deram lugar a um anexo na vivenda de Corroios, onde vive.

No que toca a restauros, Luís Cousinha diz fazer uma média de três a quatro por ano. De momento está a finalizar os dos relógios do arco da Rua Augusta, do Convento do Carmo e da Igreja do Monte de Caparica, com dois ajudantes. Se lhe pedissem um relógio de raiz não negaria. "Tenho todos os moldes e o construir até é menos complicado do que o restaurar, mas ainda assim seria um trabalho para custar 125 mil euros e demorar um ano."

Embora tenha cinco filhos, nenhum deles quer "sujar as mãos neste trabalho". No entanto, a continuidade não está em risco. "Já tenho aqui um rapaz para me suceder", conclui.|

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