"Elas são bonitas, eles são inteligentes e o contrário não é verdade"

Elas esculturais, hiper maquilhadas, de mini muito mini e decote muito decotado, em cintilações de festa, eles com óculos e borbulhas, baixotes e barrigudos ou altos e lingrinhas, de jeans e T-shirt. Elas sorriem, eles também. Elas, as "belas", entram no palco à vez, pela mão deles, com pisar de divas, e sentam-se sobre o tampo de uma secretária, o cruzar vertiginoso das pernas a arrancar olés da audiência. Eles, os "mestres", sentam-se atrás, na cadeira. A elas, as "belas", o apresentador pede para identificar o rosto no écrã gigante. Fidel Castro, Bocage, Maria de Lurdes Pintasilgo, Jose Luís Zapatero, Mikhail Gorbatchev passam sem que as concorrentes consigam articular-lhes o nome. A excepção surge com os Beatles e Vera, de 22 anos. "Então que está aqui a fazer?", pergunta o apresentador, entre gargalhadas. Vera sorri, embaraçada.

"Não quero usar o termo burra"

O embaraço de Vera tem motivo: afinal, é suposto ela não saber nada de nada, não ser sequer capaz de reconhecer uma banda pop lendária. Como as "colegas" do concurso A Bela e o Mestre, que a TVI estreou no domingo, Vera foi escolhida pela sua aparência e juventude - e pela disponibilidade para passar nove semanas enfiada numa casa com perfeitos desconhecidos, a la Big Brother, na mira de partilhar um prémio de 100 mil euro com o seu "par", o homem que fará de seu "mestre"- mas sobretudo pela sua, digamos falta de informação". A palavra "burrice", como explica Piet Hein, director da Endemol, que adaptou a Portugal este formato da cadeia americana Fox, não é bem vinda. "Não quero usar esse termo. A ideia é que elas são bonitas. E eles são inteligentes. E o contrário não é verdade."

Sobre o método de selecção dos concorrentes (que parece excluir à partida mulheres bonitas e inteligentes e homens inteligentes e bonitos) Hein prefere não falar. Como se recusa a aceitar a ideia de que o programa pode ser ofensivo por reafirmar preconceitos e estereótipos de género. "Procurámos pessoas com esse perfil, não tem nada de mal. É um programa de entretenimento, positivo, leve, para divertir, não para educar. Só pode ser considerado ofensivo para quem ache que em geral os homens e as mulheres são assim, para quem tenha esse preconceito."

"É ao contrário da realidade"

A socióloga Isabel Dias, professora da Universidade do Porto e autora de vários estudos relacionados com violência de género, não concorda. "O programa constitui um retrocesso no que diz respeito às conquistas que as mulheres fizeram, um regresso aos estereótipos mais básicos do género. A contradizer aliás o que sucede hoje na sociedade portuguesa, na qual os níveis de escolaridade nas mulheres são muito mais elevados que nos homens. Andaram à procura de uma agulha num palheiro para encontrar mulheres assim. Damos alguns passos em relação à educação para a paridade, e depois um miúdo vê isto... "

Mas Piet Hein, para quem A Bela e o Mestre é "uma experiência social", vê tudo ao contrário. " Vai fazer o preconceito das crianças diminuir. Porque ao reforçar o contraste de uma forma tão vincada desconstrói os estereótipos." Uma leitura revolucionária, por absurdo, que a bióloga e escritora Clara Pinto Correia, um dos quatro membros do "júri" que avalia os concorrentes (e que inclui também a modelo Marisa Cruz, o escritor Rui Zink e o argumentista Carlos Quevedo) não subscreve. "Eu disse isso mesmo no programa. Não há pachorra para os estereótipos de que aquilo parte, nada mais imbecil que o esterótipo da mulher burra e bonita versus o homem feio e inteligente".

Sobre a possibilidade de caucionar essa abordagem com a sua presença, a bióloga chuta para canto. "Devo dizer que não aceitei pelo que se ganha, que não é asim tanto que justifique o esforço de assistir ao espectáculo de ver gente que não sabe quem é o Fidel Castro. Coisa que aliás ainda me custa um pouco a crer. Mas sempre quis conhecer de perto um reality show, por motivos de enriquecimento sociológico e de pesquisa ficcional." Porque, precisamente, "puxa o pior que há na natureza humana".

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