23 africanos falham Cádis e chegam a Olhão

"No a tenido suerte, no ha tenido suerte." Esta era a frase que se ouvia com insistência nas vozes trémulas de frio do grupo de africanos que ontem tentou desembarcar clandestinamente na Ilha da Culatra, perto de Olhão. À medida que eram transferidos das lanchas da Polícia Marítima que os haviam resgatado da ilha para as ambulâncias do INEM e dos Bombeiros estacionadas no Cais de Olhão, lamentavam a sua sorte, por não terem chegado a Cadiz, em Espanha, a rota que o mau tempo no mar acabaria por alterar. "Trabajo, trabajo", repetiam, como que procurando justificar a sua aventura: procurar trabalho que não existe na sua terra. Por isso pagaram entre 3000 e 4000 euros pela viagem e embarcaram numa cidade da costa marroquina.

Vestidos com roupas leves, sem casacos ou blusões para esta época do ano, alguns de chinelos, os 23 imigrantes, entre os quais cinco mulheres, entre os 25 e os 30 anos, andaram à deriva no mar, num barco de pesca com pouco mais de seis metros e um motor de fraca potência (25 cavalos), durante cinco dias, até que chegaram a terra, por volta das 13 horas.

Vinham famintos, desidratados e com frio, mas assim que a embarcação chegou a terra puseram-se em fuga, escondendo-se entre as dunas da praia. Foram, contudo, avistados por um pescador local, que avisou a presidente da Associação dos Moradores da Culatra, Silvia Padinha. Esta deu o alerta à Polícia Marítima e por volta das 13.40 estavam já accionados todos os meios para o resgate dos imigrantes. "A polícia teve de procurá-los um a um", contou ao DN aquela dirigente associativa, manifestando a sua estranheza pelo facto de "os imigrantes ainda terem tido forças para fugir depois de tudo por que passaram".

É que, para os pescadores da Culatra, das duas uma: "ou o que aconteceu foi um milagre ou então eles não vieram de Marrocos naquela bateira". "Provavelmente, fizeram metade do percurso num barco maior e depois foram transferidos para a embarcação mais pequena", sustentaram alguns pescadores, frisando que "só quem anda no mar é que avalia o que é estar cinco dias à deriva com esta frieza". Como é que eles ainda tiveram forças para fugir?", questionaram.

Dos 23 imigrantes clandestinos, quatro andaram fugidos durante várias horas, tendo sido interceptados já a meio da tarde. O helicóptero dos Bombeiros sediado em Loulé sobrevoou a zona para "garantir de que não havia mais ninguém", ao mesmo tempo que, já depois de referenciados os 23 indivíduos, a Culatra era passada a pente fino pelas autoridades.

As buscas terminaram cerca das 18.00, tendo "corrido tudo muitíssimo bem e estando toda a situação ultrapassada", conforme salientou aos jornalistas, ao fim da tarde, a Governadora Civil de Faro, Isilda Gomes.

Oito elementos do grupo - seis homens e duas mulheres - tiveram de receber tratamento hospitalar devido a "hipotermia, desidratação e cansaço", mas até à hora do fecho desta edição "não corriam perigo de vida", segundo garantiu ao DN fonte do Hospital Central de Faro. Os restantes foram assistidos pelas equipas do INEM nas instalações da Polícia Marítima de Olhão. Foi-lhes dada água, alimentos e roupas quentes, após o que foram transferidos para o Centro de Acolhimento do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras do Aeroporto de Faro, onde passaram a noite.|

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