O mito da invasão espanhola

A recente visita do Presidente da República a Espanha serviu de pretexto para os grupos mais nacionalistas manifestarem uma vez mais a sua aversão aos nossos vizinhos. Nomeadamente, os nacionalistas dizem-nos que Portugal continua na sua senda de rendição a Castela, que a Espanha está a obter na economia aquilo que não alcançou à força das armas, que as empresas se estão a deslocalizar para Madrid, e que os espanhóis estão a adquirir os nossos meios de comunicação e as nossas maiores empresas. Segundo estes sectores, a invasão espanhola é a maior ameaça à nossa soberania.

Porém, a realidade ainda é bastante distinta da retórica, pois, se os números do comércio externo e do investimento estrangeiro continuam a indiciar um aumento considerável da integração económica entre as economias ibéricas, não há nada que se assemelhe a uma invasão. Senão vejamos.

Segundo os dados do ICEP de 2005, a Espanha continua a ser o nosso principal fornecedor (com 29,9% das nossas importações), mas também o nosso cliente mais importante (com 27% das nossas exportações). Claramente, estas quotas de mercado não reflectem um domínio avassalador das empresas espanholas no mercado nacional e são facilmente explicáveis pela proximidade geográfica. Para além disso, nos últimos anos, a quota de mercado espanhola tem praticamente estagnado, contrariamente ao que é propagado pelos sectores mais nacionalistas.

Mais significativamente, apesar de a Espanha ser o nosso principal parceiro comercial, a verdade é que, sistematicamente, outros países têm investido mais e têm adquirido mais activos portugueses do que os supostos invasores espanhóis. A nível do investimento estrangeiro, a Espanha continua a ser apenas o quinto maior investidor em Portugal (com 3289 milhões de euros investidos), atrás da Alemanha (4400 milhões), da Holanda (4967), do Reino Unido (3607) e da França (3552). Ora, se assim é, como é que aceitamos que holandeses, ingleses, franceses ou alemães comprem as nossas terras e empresas e não queremos deixar que os espanhóis façam o mesmo?

Finalmente, a integração económica entre os dois países ibéricos não é, de modo algum, das mais significativas. Por exemplo, o Canadá exporta mais de 87% dos seus produtos para os Estados Unidos e 70% das suas importações provêm da economia americana. Adicionalmente, mais de 60% do investimento estrangeiro no Canadá tem origem americana. Apesar deste elevado grau de integração económica, estudos demonstram que a maioria dos canadianos não considera que a sua soberania esteja a ser posta em causa pela integração económica.

Tudo somado, a retórica nacionalista sem fundamento continua a sobrepor-se à realidade económica. A incómoda verdade é que economicamente Portugal continua a precisar muito mais de Espanha do que esta necessita de nós.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG