O gato não faltou ao funeral de Cesariny

A escuridão deste Novembro molhado definiu o quadro em que Mário Cesariny foi a sepultar ontem, em Lisboa, no gavetão do Cemitério dos Prazeres que receberá o número 29. O funeral realizou-se à chuva, a cair pesada pelas 15.30, sobre 100 ou 150 acompanhantes - amigos, intelectuais, artistas, detentores e ex-detentores de cargos institucionais... Gente encharcada, calada, contida, a mais próxima exausta, deprimida. Atmosfera ideal para excluir celebrações à moda folclórica de funerais mais ou menos públicos, por iniciativa de espontâneos ou vontade de falecidos. Este era transgressor e irónico mas grave, sendo caso disso: de morte, por exemplo.

A vontade expressa do poeta-pintor Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), disse o seu editor Manuel Rosa ao DN, era só a de "ir para um jazigo". "Não queria ir para a terra nem ser cremado, ao contrário da irmã Henriette" - com quem coabitou durante anos, até à morte e cremação desta em 2004. Foi João Soares, amigo de Cesariny que lhe permitiu voltar a ter atelier na cidade quando presidiu à Câmara Municipal de Lisboa (CML), quem agora "ajudou a encontrar esta solução". A do túmulo e a da câmara ardente, na Biblioteca-Galeria Municipal das Galveias. Fora das capelas religiosas ou partidárias, impróprias para velar laicos, "não é fácil encontrar local", já nem "a Casa da Imprensa".

Do Palácio das Galveias - onde se esperava o actual presidente, Carmona Rodrigues, noutras funções oficiais e que não chegaria -, saiu o funeral, passava muito das 14.00 marcadas e mais se atrasaria, separada a cabeça do cortejo, com batedores, dos outros carros, na barafunda das Amoreiras (herança do edil pós-Soares e pré-Carmona, Santana Lopes). Escurecia entretanto nos Prazeres, onde chegámos atalhando caminho e esperavam já dezenas de pessoas mais um gato, à entrada. Nem de encomenda, um gato! Enroscado. Até afugentá-lo a chuva.

Instituições, artistas, amigos

Na despedida a um dos grandes poetas do século XX, natural de Lisboa e seu cantor, ausente Carmona Rodrigues, o poder local continuou representado, da maioria PSD à oposição PS, pelo menos: de José Amaral Lopes em pessoa, vereador da Cultura (ex-secretário de Estado) ao deputado municipal Manuel Maria Carrilho (ex-ministro da Cultura), por delegação.

Assim do poder local ao central, presentes também: o ex-ministro da Cultura Pedro Roseta, o actual SEC Mário Vieira de Carvalho (a ministra Isabel Pires de Lima está no Brasil) ou Adelaide Ginga, subdirectora do Instituto das Artes; o director do Teatro Nacional D. Maria II, Carlos Fragateiro. Talvez responsáveis por outras instituições, que não avistámos.

Vimos, sim, multidão de poetas, artistas, críticos, actores e actrizes , demais criadores cénicos. Coincidindo em cada qual, não raro, a pessoa amiga e/ou admiradora. De várias gerações. António Barahona e Eunice Muñoz, Bernardo Pinto de Almeida e João Pinharanda, Isabel da Nóbrega, Jaime Rocha, José Tolentino de Mendonça, Miguel Real, Nuno Carinhas e Marcello Urgeghe, Maria do Céu Guerra, Silvina Pereira. Manuela Correia, viúva de Manuel Hermínio Monteiro, editor inesquecível da Assírio & Alvim. Família biológica e a de escolha: Maria de Lurdes e Manuel Inácio moram com o poeta desde a morte de sua irmã, sendo Lurdes a empregada há 30 anos - "amiga, irmã, enfermeira, tudo", disse alguém e bem, foi dela a mão dada até ao último suspiro.

Obra, heranças, direitos

"Será que ele, tão livre e iconoclasta, conseguiu fruir mesmo a fundo a vida?" Encharcada, fragilizada, fio de voz incerto, a desejar que fosse positivo o saldo dessa vida também tão sofrida. Falava-nos, à saída do cemitério e à boleia de guarda-chuva, a amicíssima sobrinha-neta de Mário Cesariny, Teresa Caeiro (a também mediática deputada do PP e ex-secretária de Estado). Decerto, sim, ele fruiu a vida sorvida, enfrentou-a corajoso, loucamente a saboreou, não se poupou. Sabe-se por ter-lhe observado a natureza, apaixonada, generosa e tão grata à vida. Pela memória de falas, risos, blagues. Pela obra que fica, para se ver e ler.

Destinos dessa obra ignoram-se, à parte o grande acervo plástico já entregue ao Centro de Artes de Famalicão. Depende de quem herdar direitos de autor. "Há uma irmã, sobrinhos e sobrinhos-netos. Há vários testamentos, não sabemos se contemplam a questão dos direitos. Faremos tudo para continuar a editar o Mário, um dos esteios da Assírio, mas não sabemos", diz Manuel Rosa.

Reunir a obra dispersa do escritor - poesia, ensaio, prefácios, traduções - não será em todo o caso fácil: "Não está reunida num só volume e não tem uma edição crítica porque o Mário nunca quis o livro tijolo nem antologias. Por isso fomos fazendo reedições", explica. Afinal antologiou-se, de certa maneira, "ao escolher os poemas para gravar em audiolivros, horas e horas, com o engenheiro de som Vasco Pimentel, média de um por semana, não se sabe quantos dará." Isso está assegurado para futuro próximo e, garante o editor, "são coisas notáveis".

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