Uma ilha: Goreia, Senegal

Tem apenas dois pequenos hotéis, não tem espreguiçadeiras nem colmos espalhados pela praia, nem bares ou discotecas para saídas dionisíacas à noite. Mas está carregada de história. A ilha senegalesa de Goreia, classificada Património Mundial da UNESCO, em 1978, foi durante séculos um importante entreposto de escravos. Hoje transformou-se num entreposto de turismo cultural.

Numa visita, de apenas um dia, absorvi seis séculos de história, através de estórias contadas por pessoas tão diversas como Allou, estudante da Universidade de Dacar e guia turístico que falava português, ou Boubacar Joseph Ndiaye, um antigo pára-quedista servidor do Exército francês e actual curador da Casa dos Escravos de Goreia. Ali retrocedi até ao ano de 1444, altura em que navegadores portugueses comandados por Dinis Dias terão descoberto a costa do actual Senegal, primeiro local baptizado de Cabo Verde, bem como a ilha de Goreia, a que deram na altura o nome de ilha da Palma (a que os nativos chamavam Ber).

Muitos outros navegadores, como Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, passaram ali por aquela zona e, com a descoberta da costa do ouro, construíram onde é hoje o Gana a Feitoria de São Jorge da Mina. E, durante uma paragem em Goreia, em 1482, construíam uma pequena igreja, que é actualmente a esquadra da polícia. Pioneiros em muita coisa naqueles tempos, os portugueses foram também os primeiros europeus a traficar, em 1536, africanos naquela ilha senegalesa. Esta passou mais tarde pelas mãos dos holandeses (o nome Goreia vem do flamengo Goede Reede - porto seguro), dos ingleses e, finalmente, dos franceses.

Ao longo de três séculos, segundo o curador da Casa dos Escravos , entre 15 e 20 milhões de negros vindos de toda a África ocidental deixaram a ilha em direcção à América. A Casa dos Escravos, agora um museu, foi erguida em 1776 pelos holandeses. No mercado dos escravos, o valor das crianças era definido pelos dentes, o dos homens pelo peso (mais de 60 quilos) e o das mulheres pelos seios e virgindade. A etnia ioruba era a mais cotada por ser a mais reprodutora. A seguir aguardavam em salas de espera minúsculas a sua vez de passar pela chamada "porta sem retorno" rumo a países como o Haiti ou Cuba.

Anualmente, Goreia é palco de uma reunião entre afro-americanos descendentes de escravos. E, por dia, recebe entre 350 e 550 visitantes, entre os quais figuram já personalidades como o óbvio Nelson Mandela, Bill Clinton e George W. Bush ou o Papa João Paulo II, que, em 1992, ali pediu perdão pela escravatura em nome dos europeus.

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