TV portuguesa na Galiza para combater castelhano

Um grupo de galegos, preocupado com o avanço da língua e da cultura castelhanas, defende a recepção das televisões portuguesas na Galiza, em sinal aberto, "o mais rápido possível", para equilibrar essa situação. A proposta é apresentada amanhã, em Braga, em nome da preservação do idioma desta região vizinha.

Luís Magarinhos, um dos elementos da Plataforma pela Recepção da TV Portuguesa na Galiza, lembra que a língua galega, "variante do português", encontra-se "muito pressionada pela cultura castelhana". Uma forma de "reverter o processo", diz, será uma maior aproximação a Portugal. E uma das pontes, de fácil acesso aos 2,3 milhões de galegos, pode ser a televisão.

Na Galiza, em sinal aberto, há apenas um canal de televisão galego e cinco falados em castelhano. "A proporção é muito desigual", frisa Luís Magarinhos, que está a preparar uma pós-graduação em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na imprensa publicada na terra onde nasceu Rosalia de Castro e Castelao, a língua de Cervantes é igualmente a dominante.

"O direito linguístico dos falantes galegos não está a ser garantido", o que contraria a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias. "A situação linguística não é boa, sendo a população jovem a mais pressionada, porque todo o acesso cultural tem como base o castelhano", assegura. Luís Magarinhos pertence ao grupo dos reintegracionistas (ou lusistas). Esta corrente linguística defende que a escrita galega deve seguir a norma do português, tal como aconteceu no passado remoto.

Além das quatro televisões portuguesas - os dois canais públicos, mais a TVI e SIC -, o movimento vai reivindicar ainda as emissões das "principais rádios portuguesas", nomeadamente da RDP, Renascença e TSF. Neste momento, na região da Galiza, a partir de Portugal só está disponível a RTPI, por cabo. «É uma contradição terrível: temos acesso com mais facilidade a qualquer televisão de países como a França ou Inglaterra do que às televisões de Portugal".

Bloco Nacionalista apoia

A Plataforma pela Recepção da Televisão Portuguesa, que integra alguns portugueses, surgiu há cerca de seis meses. Amanhã, em Braga, cidade onde decorre a Semana Galiza, divulga a sua proposta, em conferência de imprensa, que depois será apresentada ao governo galego. "Cabe à Junta da Galiza negociar com o Governo português", por se tratar, fundamentalmente, de uma questão política.

Os problemas técnicos "são pequenos e muito fáceis de resolver". Por isso, "não carece de grande investimento" criar as condições para os vizinhos da Galiza verem, em sinal aberto, os programas televisivos produzidos do outro lado da fronteira.

O movimento pela recepção da TV portuguesa na Galiza "não está a lutar contra o castelhano, queremos apenas equilibrar as coisas", garante. A partir de amanhã, depois de divulgada a ideia, Luís Magarinhos espera o apoio de algumas forças políticas da região. O Bloco Nacionalista Galego - que partilha agora o poder com os socialistas na Junta da Galiza- "estará por certo receptivo a esta questão, fundamental para a preservação da nossa cultura e da nossa identidade enquanto povo", afirma o promotor.

O PS galego não será tão fácil de seduzir para a ideia. Mesmo assim, "estamos muito optimistas". Na Galiza, "quase toda a gente se mostra preocupada com a questão linguística". Por esse motivo, acredita que a recepção da televisão portuguesa deverá merecer um apoio alargado da sociedade galega. Luís Magarinhos lembra, ainda, que certos países, nomeadamente a Suíça ou a Bélgica, igualmente por questões linguísticas, já recebem emissões em sinal aberto das televisões de algunspaíses vizinhos.

Incumprimento

Segundo a Carta Europeia da Línguas Regionais ou Minoritárias, no interesse destes idiomas deve ser facilitada e promovida a cooperação através das fronteiras, "nomeadamente entre as colectividades regionais ou locais no território das quais a mesma língua é utilizada de modo idêntico ou próximo".

Para Luís Magarinhos, na região autónoma da Galiza, está a haver um "incumprimento" dessa normativa europeia. A Carta Europeia das Línguas Regionais e Minoritárias, refira-se, apela aos Estados, onde a mesma língua é utilizada de modo idêntico ou próximo, para favorecerem os contactos entre os falantes da mesmo idioma.

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