O retrato de Sampaio que teve várias versões

Afinal havia um outro quadro. Ou melhor, um estudo do retrato oficial de Jorge Sampaio para figurar a partir de quinta-feira na galeria presidencial de Belém. A primeira ideia de Paula Rego, mais ousada, "incluía Jorge Sampaio, ela própria e uma bandeira", revelou ao DN José Manuel dos Santos, assessor cultural do presidente cessante. Um mais do que esboço que não agradou a ninguém. "Tinha demasiados elementos", comenta o assessor. O próprio Jorge Sampaio confessou ao DN que "não gostava dele".

Mas ontem à noite, entre os muitos intervenientes da área da cultura, a maioria do público que assistiu à cerimónia, não foram poucos os que preferiram a versão "rejeitada", o quadro em que Jorge Sampaio apresenta um rosto mais descontraído e outro estar.

Agora, o Palácio de Belém passa a contar com várias obras de Paula Rego: o retrato oficial que ficará na galeria, com os Columbanos e os Medinas, e mais recentemente com Júlio Pomar, que quebrou com a pose demasiado formal que caracteriza os retratos dos chefes do Estado anteriores; a versão rejeitada que foi doada ao Museu da Presidência; e, ainda, as oito pinturas de Paula Rego sobre o Ciclo da Vida da Virgem, realizadas para a antiga capela do Palácio de Belém. O ciclo está avaliado em 1,5 milhões de euros e, cada uma das versões ontem mostradas, 350 mil euros. Na cerimónia de apresentação oficial do quadro, a pintora portuguesa que vive em Inglaterra manteve-se muito discreta e não quis conversar com os jornalistas. Quem a conhece comentava que "ela só gosta de falar com pouca gente e ao pé dos seus quadros".

Depois da sessão de fotografias de Jorge Sampaio e Paula Rego junto ao retrato oficial, seguiram-se os discursos. O Presidente que acaba o mandato disse ser "um prazer" que dos seus últimos actos públicos tenha sido aquele, "porque penso que o País deve homenagear Paula Rego", uma sua velha amiga, com "talento e grandeza". Contou das muitas horas a pousar que em vez de serem um sacrifício, foram a oportunidade de ver "o criar, horas a fio, sem pestanejar".

Um especialista em arte sacra, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, elogiou "a imaginação criativa" da pintora, cuja expressão artística "é inovadora, exige disponibilidade e a busca do outro". Os oito "quadradinhos", como disse, que compõem o ciclo Mariano são "uma provocante transparência religiosa". "Coragem" foi a palavra escolhida pelo director do Museu de Serralves, João Gonçalves, para classificar a atitude de ambos. De Jorge Sampaio por convidar a pintora, e de Paula Rego por ter aceite o convite.

O DN ouviu algumas opiniões sobre o retrato do Presidente. Carlos Carvalhas confessou-nos que "gostou dela e da apresentação dele", considerando-o "um grande quadro". O director do Museu Vieira da Silva, o arquitecto Sommer Ribeiro, disse ter "adorado o quadro recusado, porque a Paula Rego fez um retrato não formal nem académico". O arquitecto João Carrilho da Graça achou o quadro oficial "lindíssimo" que "fixa com imensa inteligência o carácter do presidente". Maria José Ritta, que agora se retira de primeira dama, comentava ao DN que entre Jorge Sampaio e Paula Rego houve "uma excelente colaboração e empatia de base" que resultou no retrato ontem oficializado. "Uma escolha acertada".

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