Histórias pós-modernas de mistério e imaginação

Histórias pós-modernas de mistério e imaginação

The Pillowman

Autor: Martin Mc Donagh

Encenação: Tiago Guedes

Elenco: Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, João Pedro Vaz, Marco D'Almeida

Local: Teatro Maria Matos

Na peça The Pillowman (2003), de Martin McDonagh (n. 1970), a estrutura dramática utiliza o mesmo processo evolutivo da intriga. Contar histórias substitui aqui a acção - é a reconstrução de memórias reprimidas que revela as personagens - funcionando, também, como manipulação da informação partilhada com o público.

Não se julgue feliz, porém, o tabuleiro deste jogo. Os temas são negros (infanticídio, abuso sexual de menores, homicídio e abuso de autoridade). E mesmo no seu irresistível humor negro, a estudada abertura de matrioskas descobrirá um mundo onde realidade e ficção inquietantemente se confundem.

O realizador Tiago Guedes - autor do êxito cinematográfico Coisa Ruim - sublinha, no osso, o texto bem arquitectado do dramaturgo anglo--irlandês. A concepção plástica do espectáculo absorve o lado gore desta enormidade. Jerónimo Rocha, Joana Faria e Nico Guedes organizam o espaço através duma despojada estrutura rectilínea que também é dupla de si mesma (no centro da cena, um segundo palco entaipado a azulejos torna-se num falso ponto-de-fuga do primeiro).

Esta contenção afecta, ainda, o cromatismo dos materiais (limitados a preto, branco e cinzentos), a iluminação de José Álvaro Correia - quase reduzida à alternância entre a luz branca, que agudiza as cenas "reais", e uma envolvente luz difusa, que potencia a fuga onírica do acto de contar -, as perturbantes sonoridades de Hugo Leitão e a animação que, entre a ironia corrosiva dos Simpsons e a violência sardónica dos Happy Tree Friends, substitui a cena mais sanguinolenta da peça (e dispensa quatro personagens).

A solidez crua da paisagem visual liberta o encenador para a construção dos verdadeiros tecedores desta trama kafkiana, onde infanticídios ficcionados por um homem vulgar o levam, com o irmão deficiente, a ser interrogado por polícias meticulosamente brutais, acerca da materialização da sua imaginação sádica no assassínio de três crianças.

A estreia de Tiago Guedes na encenação fica marcada, pois, pela assinalável direcção do elenco. É ao genial protagonista de Gonçalo Waddington - a frustração da "verdade" assenta no seu fabuloso domínio de registos paradoxais -, à idiotice reveladora que Marco D'Almeida confere ao irmão e aos polícias nada previsíveis de Albano Jerónimo e João Pedro Vaz que devemos um "crime e castigo" pós-moderno, onde a farsa devora a tragédia.

De quarta a sábado, 21.30; domingo, 17.00 (marcações: 218 438 800)

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