'Ensaio sobre Teatro' na Cinemateca

Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, seduziu o realizador Rui Simões, que sonhava adaptá-lo ao cinema mas teve a noção dos obstáculos intransponíveis, a começar pelos exorbitantes direitos de autor. Quando João Brites pensou encenar outro romance do escritor, persuadiu o amigo e director d'O Bando, com quem colabora há muito, a optar pelo Ensaio... O resultado é Ensaio sobre Teatro, documentário com antestreia em Lisboa, hoje (Cinemateca, 21.30), e no Porto, dia 20, no Teatro Nacional São João/TNSJ, co-produtor do espectáculo.

"Mostrar o trabalho dos actores, que é muito complexo, exige muita generosidade e implica grande dificuldade" foi um objectivo de Rui Simões em Ensaio sobre Teatro, diz o realizador ao DN. Mas admite - com "medo de ter defraudado alguma coisa ou alguém" - não saber ainda muito bem "falar sobre este filme". Espera ir mais longe na noção do que fez, esta noite, na sala escura, face às reacções dos intervenientes.

Rui Simões refere-se às presenças do Nobel da Literatura, de João Brites (autor também da dramaturgia), dos actores, do compositor Jorge Salgueiro (autor da banda musical) e doutros membros da equipa. Após esta exibição e a do Porto, o filme - segundo o autor, descrente da sorte de documentários em sala - "entra no circuito de DVD, com sessões de lançamento pelo País".

No entanto, Ensaio sobre Teatro, acrescenta o realizador de Deus, Pátria, Autoridade e Bom Povo Português (ainda os seus filmes mais conhecidos), foi seleccionado para o novo Festival Internacional de Lisboa de Cinema Ibérico, a realizar em Dezembro, no Cinema S. Jorge. "Estou muito interessado, é uma possibilidade de o mercado espanhol se interessar pelo filme, por causa de Saramago, e assim atingir o mundo ibero-americano", confessa.

Após um visionamento em DVD (tem três extras), adiantamos que Ensaio sobre Teatro é um revelador fascinante do processo criativo, passo a passo, de um dos mais notáveis espectáculos d'O Bando. Simões, seguindo em especial o trabalho dos actores - sem o qual o espectáculo não existiria -, registou o processo criativo nas várias etapas, desde a primeira residência da companhia, no Hospital Velho de Viseu (Maio 2003). Seguiram-se ensaios nas instalações d'O Bando em Palmela e enfim no Porto, após gravação, para a banda musical, da partitura de Salgueiro pela Sinfónica do Porto.

Passo a passo até à estreia (Abril 2004), em cujos bastidores, no TNSJ, o pré-genérico nos introduz, dando a ver 22 intérpretes em preparativos para a entrada em cena, desvendando o microcosmo teatral, onde não faltam os tradicionais votos prévios de "muita merda". Após a entrada dos convidados para a estreia, filmados no foyer e pelas escadarias do teatro, vemos algumas cenas do espectáculo, com excertos do romance inscritos no ecrã.

Daí em diante, a montagem paralela faz-nos aceder, alternadamente, às cenas e à sua preparação em vários momentos. Com incursões pelas diferentes áreas criativas, dando a palavra ao autor e ao encenador, ao cenógrafo (Rui Francisco) e à iluminadora (Cristina Piedade), à figurinista (Maria Matteucci) e ao sonoplasta (Sérgio Milhano).

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG