E a neve caiu sobre Lisboa, 50 anos depois

oi preciso mais de meio século para a história se repetir. Mas aconteceu. Quando de um pouco de todo o País chegavam relatos de uma manhã pintada de branco, também Lisboa saía ontem à rua para ver... nevar. Os flocos, que nalguns locais, como Évora, até deram para construir bonecos de neve, maravilharam os portugueses de norte a sul e fizeram disparar as chamadas de telemóveis. Mas provocaram também problemas, como corte de estradas.

Eram 15.00 quando o mercúrio dos termómetros trocou as voltas aos meteorologistas e desceu ao meio grau em Lisboa - muito abaixo dos quatro graus previstos. Os aguaceiros, que durante a noite de sábado fustigaram a capital, transformaram-se à tarde em flocos de neve e foram poucos os alfacinhas que resistiram a desafiar o vento gélido e ir à rua espreitar o fenómeno.

O espectáculo, que não durou mais do que uma hora, não foi suficiente para cobrir de branco o chão da capital, mas chegou para fazer história. Afinal, a última vez que nevou em Lisboa foi em 1954. Antes disso, só dez anos antes, no Natal.

Face ao frio, a câmara de Lisboa accionou um plano de contingência para os sem-abrigo, disponibilizando o centro de Regueirão dos Anjos e abrindo as estações de metro de Socorro, Sete Rios e Baixa/Chiado.

Segundo explicou ao DN Idália Mendonça, a técnica ontem de serviço no Instituto de Meteorologia, na origem do cenário "raríssimo" esteve uma "depressão a oeste do território continental", que ao meio-dia estava "muito próxima" da zona de Lisboa. O fenómeno transportou para o País o "ar muito frio", fazendo com que os zero graus necessários à ocorrência de neve chegassem até à superfície - e não só às zonas acima dos 400 metros, como era previsto.

Um cenário de "queda de neve generalizada em todo o País" que, segundo a especialista, não acontecia desde 1983. Nesse Inverno, recorda, apenas a capital escapou aos flocos que caiaram todo o território.

Tudo começou na noite de sábado, quando a chuva no Norte se tornou neve. A partir das 09.00, já chegavam notícias brancas vindas de zonas como Figueira da Foz, Leiria, Torres Novas, Redondo ou Evoramonte. "Todo o Centro e Sul teve ocorrência de neve, mesmo nos locais inesperados", comentou, acrescentando que "provavelmente nevou em todos os distritos do País".

Mas "as temperaturas mínimas nem foram anormalmente baixas", sublinha Idália Mendonça. As mais frias foram nas Penhas Douradas (-8) e Nordeste transmontano (-7).

A queda de neve, a que não escapou o Algarve, levou ao corte da A1, A8, A15 e A6 - esta última era a única ainda interrompida à hora de fecho desta edição. Com famílias a fazer-se à estrada, houve alguns despistes, sem gravidade. Noutros locais, houve registo de queda de árvores e cortes de electricidade.

Entre as 15.00 e as 15.30, as operadoras móveis registaram um "pico substancial" de chamadas e sms. Segundo fonte da Vodafone, o "tráfego fenomenal" foi equiparável ao da Passagem de Ano e a TMN apontou um "fluxo absolutamente anormal". A Optimus registou mais 42% de ráfego do que num domingo "normal".

Se mora a sul de Lisboa e hoje acordou com um manto branco à porta, não se admire. As últimas previsões apontavam para neve. Para hoje, embora as temperaturas mínimas devam continuar baixas, espera-se céu limpo e um "aumento substancial" das máximas, que ontem desceram muito além do previsto. Amanhã, com o tempo a aquecer, a neve promete voltar a ser, para muitos, uma gélida recordação.

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