Colecção Ellipse revela-se em Cascais a partir de hoje

Aexpectativa é grande e o objectivo não podia ser mais ambicioso: colocar Cascais na rota da arte internacional, com um museu privado e uma colecção capaz de rivalizar com as melhores do mundo no que respeita à criação dos últimos 25 anos. A primeira exposição da Ellipse Foundation, projecto lançado e presidido pelo banqueiro João Rendeiro, é hoje inaugurada no seu Art Center, em Alcoitão, com 78 obras de Julião Sarmento, Cindy Sherman, Douglas Gordon, Richard Prince ouThomas Hirschhorn.

Selecção de um acervo que conta já com mais de 300 peças, este ainda é, como diz Pedro Lapa. "uma espécie de grande ensaio" destinado ao público português, já que a "inauguração internacional" se fará com a segunda exposição, a 15 de Outubro. A reacção dos visitantes ditará as "afinações" necessárias.

Representando um investimento de 10 milhões de euros, metade do orçamento disponível, as compras foram realizadas em dois anos. Com o aval de um conselho consultivo internacional, mas da responsabilidade de três curadores: Manuel González, que dirigiu durante 18 anos a JP Morgan Chase Collection de Nova Iorque; Alexandre Melo, crítico e assessor do primeiro-ministro, e Pedro Lapa, director do Museu Chiado.

"O boca-a-boca sobre a colecção é incrível", garantiu ontem Manuel González, durante a visita guiada à imprensa. Tendo já motivado um artigo do New York Times e despertado a atenção de artistas e galeristas de renome - "se conhecem a qualidade do que estamos a comprar, têm interesse em que as suas melhores peças fiquem connosco" -, a Ellipse poderá, segundo o curador, fazer pelo turismo da região de Lisboa o que o Guggenheim fez pelo de Bilbao.

As primeiras impressões

Patente até 18 de Setembro, a exposição inaugural - intitulada Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, como a fundação -, abre com uma peça auto-referecial: The Garden of Mistrust, do artista cubano Alexandre Arrechea, uma árvore que em vez de frutos tem câmaras de vigilância a filmar a rua.

Estabelecendo relações de afinidade entre as obras, que tanto pode ser de ordem temática ou material (como texturas semelhantes conseguidas em diferentes meios), as 10 galerias acolhem pintura, vídeo, escultura, fotografia ou instalações de criadores de referência no domínio da arte conceptual, artistas em meio de carreira ou jovens valores.

Mesmo que algumas peças de Pierre Huyghe, Shirin Neshat ou Matthew Barney não tenham chegado a tempo de integrar esta exposição, o que se pode ver já impressiona. Na grande galeria do piso térreo destacam-se Concrete Shock, uma enorme instalação de Thomas Hirschhorn que cruza a arte e a guerra; as seis ventoínhas de Gabriel Orozco que fazem esvoaçar papel higiénico; o tríptico de pintura Suffering, Despair and Ascent de Julião Samento ou o efeito hipnótico das pás metálicas que riscam e alisam areia na peça +and- de Mona Hatoum.

De Richard Prince, além de pintura e fotografia (a solo como a série de cowboys ou num trabalho com Cindy Sherman), a Ellipse tem uma obra única: Untitled (A Traveling Salesman's), pequenas telas com piadas que na altura vendia por dez dólares. Tal como Sherman fazia com os seus Film Stills - Madonna doou ao MoMA um milhão de dólares por uma série de 54; a Ellipse tem quatro.

Nos vários espaços dos dois pisos estão ainda Exotic Other de Mike Kelly (com almofadas a imitar o corpo de Cher). Os tapetes "voadores" com palavras moldadas em ráfia por Cristina Iglesias. As fotografias de Loiuse Lawler, Wolfgang Tillmans ou Bernd e Hilla Becher. As obras autobiográficas de Gonzales-Torres e Jack Pierson. As polémicas silhuetas afro-"balzaquianas" de Kara Walker. Santa Clauses de Miroslav Balka. Ou as esculturas Devastação de Rui Chafes e Ascenção de Pedro Cabrita Reis.

João Pedro Vale, o artista mais jovem da colecção, ultimava ontem Can I Wash You?, esculpida em sabão. Junto à escada estavam fotos de Candida Höfer e A Solemn Painting de Ilya e Emilia Kabakov. E nas salas de vídeo já rodavam Film Noir Series, de Douglas Gordon, The Girl of the Golden West, de Vasco Araújo, ou Pas d'Action, de João Onofre.

Para o curador norte-americano, este acervo está ao nível, e é "complementar", da colecção Ludwig, no Museu Wallraf-Richards de Colónia (reunida nos anos 60). "Pode-se gostar ou não, mas não se pode negar a força deste trabalho", concluiu.

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