Uma estética da decepção

Jorge de Sena escreveu dois livros seminais no diálogo entre a moderna poesia portuguesa e as outras artes Metamorfoses (1963) e Arte de Música (1968). Não sendo inédito, esse agrupamento explicitamente temático só então ganhou uso generalizado, e deu nos últimos anos livros magníficos como Música Antológica (1997), de Rui Pires Cabral, e Museu das Janelas Verdes (2002), de João Miguel Fernandes Jorge. Movimentos no Escuro, de José Miguel Silva, é mais um contributo uma colectânea de poemas sobre (ou com) filmes.

Esta filmografia seleccionada é ecuménica, pois tanto inclui os clássicos Bergman ou Kurosawa como filmes independentes americanos, e ainda Super-Homem de Richard Donner ou o jogo Bayern de Munique 1 x F.C.Porto 2 (1987). Ou seja não interessa apenas o valor objectivo do filme (ou mesmo o seu estatuto enquanto filme), mas o impacto emocional causado. O mais curioso neste tipo de textos que contêm remissões ou supõem um diálogo é sabermos em que medida precisamos de conhecer o objecto referido, e de que modo o escritor dialoga com esse objecto. São dois critérios interdependentes: se o texto for muito colado ao objecto artístico nomeado (geralmente em título), os que não conhecem esse objecto dificilmente compreendem o texto. Acontece que o referente, sendo importante, não é essencial, pois um texto poético é um exercício de linguagem. A questão é aqui algo contornada, uma vez que José Miguel Silva escreve sobre filmes muito diversos e com estratégias muito diversas há poemas que são sinopses comentadas, outros que são monólogos dramáticos das personagens, outros que imaginam situações a partir de cenas concretas, outros que ecoam episódios biográficos ou memórias escavadas, como essas "leves incidências" e "lâmpadas que estoiram" que significativamente aparecem no poema chamado "Amarcord".

Embora o poeta não escolha apenas filmes políticos, é verdade que a dimensão política lhe interessa bastante, geralmente numa atitude de crítica ou asco face ao regime centrista e à mediocridade democrática (talvez uma influência de Joaquim Manuel Magalhães). Esse sentimento político não nasce de teorias mas de experiências, de reflexos de algumas vidas difíceis que se tornam brevíssimas elegias. Escrevendo sobre o cruzamento entre as várias artes na nova geração de poetas portugueses, diz o ensaísta Luís Carmelo "Uma das atitudes da expressão plástica contemporânea é o registo de choque, e das tensões através de imagens fortes e hiper-reais que remetem para situações dispersas de violência social, embora sem uma clara colagem à tradição moderna dos 'grandes' compromissos que implicassem desígnios transformadores do mundo. É uma atitude mais questionadora e problemática do que denunciadora e actuante" (A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea, Europa-América, 2005). O fracasso da sociedade e o fracasso individual nem sempre têm fronteiras definidas, como vemos neste poema, que se refere ao Le Feu Follet de Louis Malle "Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria / um lugar perfeito: a despovoada alegria / dos montes, as ruas esmaltadas de verdura, / os séculos sem rumo nem História. // Utopia menos dúbia não conheço do que esta. / E era tão simples: bastava que cada um / abdicasse um pouco do nó cego / a que chamamos eu, dessa falsa confiança, // uma vida a conta-gotas. Bastava / um tiro certeiro, um nó corredio, um saco / de plástico a fechar no pescoço. Mas não, / deixemo-nos de sonhos revolucionários: // a paz na Terra só virá por acidente / (vascular-cerebral, ao volante, o que for). / Somos todos egoístas, frívolos, vivos, / incapazes de um gesto despoluidor. // Eu próprio, que devia dar o exemplo, / estou sentado na cozinha a tentar decidir-me / entre pão com manteiga e bolachas de centeio, / enquanto a chaleira, no fogão, assobia para o ar" (pág. 34). Há aqui uma noção de sofrimento e fragilidade que não se esgota na dimensão social: não por acaso, Magnólia, o épico emocional de Paul Thomas Anderson, é um dos filmes mais atentamente glosados. A razão é simples a estética da decepção é aqui fundamental.

José Miguel Silva demonstra uma vez mais uma arte poética que se distancia de um espontaneísmo ingénuo e escolhe um trabalho poético intenso mas discreto. Não se vislumbra aqui nenhuma espécie de formalismo, apenas uma sensata sabedoria estrófica que desencadeia poemas construídos palavra a palavra, que evitam clichés e jogam no inesperado vocabular. São inúmeros os versos que anunciam alguma facilidade e depois resultam em soluções originais (mas não exibicionistas).

Ao mesmo tempo, uma arte tão eminentemente memorável como o cinema não tem aqui correspondência em versos memoráveis. José Miguel Silva não está interessado nesse efeito, mas na paciente acumulação da sua cinemateca, como neste poema, um elogio à sétima arte por via televisiva "Era no tempo em que existia televisão em Portugal. / Fascínio e desconforto estremeciam connosco, / no centro da sala, diante d'O Sul de Victor Erice, / de Fountainhead, ou Mahabharata. Nessas horas / tiradas ao sono, à indiferença, crescíamos juntos, / e a nossa relação fortalecia-se em temíveis escrutínios. / (...) cinco noites de atenção / religiosa, quase imóveis, mão na mão (...) / com as palavras, / no final, a prolongarem-se entre nós como tirantes / de sentido, num jogo semelhante ao do prazer, / em que ganham os dois lados do enleio" (pág. 37).

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