Pauleta levanta voo

Já aconteceu por 39 vezes na selecção. Depois de a bola beijar as redes da baliza adversária, os braços abertos, como um açor planando sobre os campos verdes de Ponta Delgada, são a imagem de marca de Pauleta, o melhor marcador em actividade na selecção nacional, que está perto de desfeitear Eusébio no topo da lista dos melhores marcadores de sempre de Portugal. Depois do bis frente ao Luxembugo, faltam agora apenas dois golos para o avançado do PSG alcançar o rei.

É peculiar o percurso deste tímido açoriano. Pauleta foi um jogador desaproveitado pelos clubes nacionais, sem contar com um único jogo no escalão principal do futebol português. Ainda passou pelos escalões jovens do Benfica e do FC Porto, mas sem grandes memórias. Como tantas outras, a história de Pauleta começa nas pedalinhas de rua. O seu talento dá nas vistas e ingressa na comunidade Jovens de São Pedro, o seu primeiro clube. Já no Santa Clara, para onde se transfere de seguida, a sua capacidade goleadora chama a atenção do treinador Jaime Graça. A antiga glória do Benfica reconhece talento no jovem e incentiva-o. "Faz golos com essa facilidade na II Divisão e também fazes na I Divisão. Só tens é de lá chegar, porque o futebol é igual em todas as divisões", diz.

No Continente, as actuações de Pauleta também não passam despercebidas. Além de ser chamado aos trabalhos das selecções jovens aos 15 anos, surge também o convite do Benfica. No entanto, duas semanas depois, as saudades da família levam-no de volta aos Açores. Na época seguinte chega o assédio do FC Porto. Pauleta assina pelos dragões e logo no primeiro ano, como júnior azul e branco, sagra-se campeão nacional. O seu treinador de então, Augusto Inácio, transmite-lhe que a direcção portista pretende emprestá-lo. De novo o coração fala mais alto que o gosto pelo futebol e Pauleta regressa aos Açores. Santa Clara, Operário, Angrense e por último União Micaelense enchem as páginas da cronologia de Pauleta durante esses anos.

Mesmo relegado aos escalões inferiores Pauleta vai-se intrometendo entre os grandes do futebol nacional, escondido no Operário recebe o troféu de melhor marcador de Portugal. "Lembro-me perfeitamente", recordava o jogador em entrevista recente. "Era o troféu Neves de Sousa e recebi-o no ano em que fui para a tropa."

Só com a transferência para o Estoril, em 1995, é que Pauleta começa a ganhar projecção. Pouco depois, com a mudança do "Açor" para Salamanca, em 1996, as suas virtudes de goleador despertaram interesse de grandes clubes, com o Corunha, onde se sagra campeão de Espanha na época de 1999/2000, depois o Bordéus (onde obtém o título do melhor marcador do campeonato francês em 2002) e agora o PSG.

Por este percurso pouco usual, Pauleta despertou relativamente tarde para a selecção. Só em 1997 - tinha então 24 anos -, teve a sua oportunidade na equipa das quinas, então orientada por Artur Jorge. A sua estreia ocorre frente à Arménia, num jogo em que o "Açor" ficou em branco.

ALCUNHA. À semelhança do seu percurso futebolístico, Pauleta é, ele próprio, peculiar. A começar pelo seu nome, não Pauleta, mas sim Pedro Miguel Carreiro Resendes. Para que se saiba, Pauleta é uma alcunha com origem na família da avó materna do seu pai, que foi passando de geração em geração, até assentar sobre o jogador. Curioso também no ilhéu é o medo de voar. Parece mentira, mas Pauleta tem medo de andar de avião. Há algum tempo, passou mais de um dia no Aeroporto de Lisboa, à espera que o tempo nos Açores permitisse finalmente aterragens em São Miguel. Talvez no interregno tenha aproveitado para degustar um prato de bacalhau com natas, a que não resiste, de preferência acompanhado de Duas Quintas, reserva de 1997.

GOLEADOR. "Eusébio será sempre o rei". As palavras são de Pauleta e sintetizam o respeito do jogador açoriano pelo goleador-mor de Portugal. Mesmo sabendo que é apenas uma questão de tempo até chegar ao topo da tabela, Pauleta faz questão de salientar que o rei é "inultrapassável". Certo é que também os dotes de Pauleta parecem não encontrar substituto à altura em Portugal. Por exemplo, no Euro 2004, embora sendo sempre titular, não marcou um único golo. Em jogos oficiais, a sua ficha de golos agrupa várias selecções menores .

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