"O PCP tinha uma estrutura no Exército desde Goa"

Isso significa que Eanes foi surpreendido pela intervenção de Melo Antunes?

Não sei. De qualquer forma, isso não estava nas atribuições de Eanes. Os Nove tinham autonomia política para decidir o que era mais conveniente. Além disso, é preciso pensar também nos socialistas. O PS não queria que o PCP fosse ilegalizado. O PS não queria ser a única esquerda visível no espectro político, dado que isso teria graves repercussões para a democracia. Se os partidos não estivessem todos legalizados, que tipo de democracia é que existiria em Portugal? Ora, isto escapava a Eanes...

Eanes era só chefe militar dos Nove?

É a minha convicção. A nível militar, quem mandava era Eanes. A nível político, era Melo Antunes. Foi ele que liderou todos os contactos com o PS. Não quero dizer, com isto, que a posição do PS fosse unânime ou que o PS gostasse sequer de Melo Antunes....

Eram apenas aliados...

Claro. Só se consegue construir uma maioria em torno de princípios fundamentais. Repare-se, por exemplo, nos gonçalvistas. O PCP também tinha grandes problemas com eles. Nessa altura, não havia assim tantos militares que estivessem dispostos a receber directivas do Comité Central...

Mas havia quem estivesse?

Havia, havia. E alguns estavam, mais ou menos, organizados desde os tempos de Goa coronéis do Exército, que tinham passado pela Índia como capitães, e que ali tinham vivido o pós-independência e contactado com o comunismo e com as ideias de libertação do Terceiro Mundo. Pessoas como Vasco Gonçalves, Varela Gomes ou Vicente da Silva, que viria, depois, a liderar, pelo menos em teoria, a estrutura militar comunista no 25 de Novembro. Além disso, existia também um grupo de militares que tinha passado pela Academia Militar durante a Guerra Civil de Espanha. Tanto uns como outros eram muito influenciados pelo PCP. Eram, por assim dizer, militantes do partido, mesmo que alguns não possuíssem cartão.

Estavam, estruturalmente, ligados ao PCP...

Partilhavam estratégias e objectivos. Mesmo que eles fossem, como era o caso, muito minoritários no Exército. Já na Marinha, era outra coisa. Sobretudo desde o final dos anos 60, quando passou a existir uma organização por cursos e o PCP conseguiu, através do Clube Militar Naval, criar uma grande rede de influência. O que acabou por ser reconhecido pelo ministro da Marinha de Marcelo Caetano, o almirante Pereira Crespo, que teve sempre uma atitude muito condescendente com esses oficiais. Não os perseguiu, nem impediu que eles organizassem cursos e debates sobre a iniciação ao marxismo ou à luta de classes. O que numa ditadura...

O facto de Pereira Crespo ter, ao que tudo parece indicar, pertencido à maçonaria explica alguma coisa?

Creio que sim. Os maçons caracterizam-se, sobretudo, por serem liberais...

A Marinha acabou, portanto, por se transformar no grande núcleo de influência do PCP nas forças armadas...

Sim, até porque os gonçalvistas tinham uma posição muito débil no Exército e eram quase inexistentes na Força Aérea. Entre os pilotos- -aviadores não tinham ninguém...

Ficavam-se pelos sargentos...

E por um ou outro oficial miliciano. Já a nível dos sargentos, quer do Exército quer da Marinha ou da Força Aérea, o PCP tinha grande influência, controlando mesmo toda a estrutura de sargentos e cabos.

Como explica, então, a pouca influência dos gonçalvistas no Verão Quente e no 25 de Novembro?

Era um grupo muito heterogéneo. Onde havia pessoas da extrema-esquerda e outras que reagiam mal às tentativas de controlo do PCP. Como Arnão Metelo, que controlava o Exército dentro deste grupo, me referiu "Estávamos no mesmo barco, mas não éramos a mesma coisa." Além disso, havia posturas muito indisciplinadas, como se constatou no 25 de Novembro: a certa altura, o PCP disse-lhes para não saírem, e o Diniz de Almeida foi a correr para a rua. Ou seja, havia militares que estavam de acordo com o PCP, mas que queriam ir além do que o PCP preconizava.

Para obrigar o PCP a agir?

Sim, um pouco na linha de que não haveria outra oportunidade...

No seu livro, revela que a esquerda militar tinha uma estrutura. Liderada por um coronel do Exército (Vicente Silva), uma vez que Rosa Coutinho era da Marinha, e composta por Arnão Mete- lo, Eurico Corvacho, José Emílio da Silva (Exército), Costa Martins, Pereira Pinto (Força Aérea), Almada Contreiras e Miguel Judas (Marinha). E no PCP, quem era o interlocutor?

Jaime Serra, o homem da ARA. Era ele que controlava os contactos com os militares. Mas é claro que Cunhal estava a par de tudo.

O que é que o PCP pretende quando faz saltar os pára-quedistas?

O 25 de Novembro tem muita a ver com a descolonização de Angola. É isso que leva o PCP a criar os SUV ou a prolongar o Governo de Vasco Gonçalves. O objectivo era garantir que Angola se tornasse independente, sob liderança do MPLA. Mas esse não era apenas um objectivo do PCP. Havia muitas outras pessoas que queriam o mesmo e que consideravam que o MPLA era o único partido com legitimidade o PS, os Nove... Na altura, nem Mário Soares dizia o contrário...

Garantida a independência de Angola, o que é que o PCP queria mais?

Que não houvesse capacidade militar para impor soluções. É isso que os leva, por exemplo, a criar os SUV. A criação dos SUV só serviu para criar confusão nos quartéis, impedindo que o "inimigo" travasse a independência de Angola.

O que nos remete para o V Governo Provisório e para a sua composição?

Exactamente. Não é por acaso que o número dois desse Governo é Arnão Metelo, que, nessa altura, já tinha também sido colocado no estado-maior do Copcon...

E é isso que explica a inclusão nesse Governo de outros militares, que já tinham colaborado também com Rosa Coutinho em Angola, como José Emílio da Silva, Alfredo Moura e Correia Jesuíno?

Sim, mas nenhum deles tinha grande expressão militar. No V Governo, quem conta é Arnão Metelo.

Entretanto, há um grupo de pára-quedistas que regressa de Angola e a correlação de forças altera-se...

Especialmente dentro da RML, onde, uns e outros, achavam que tudo seria decidido. Contudo, o problema dos gonçalvistas é mais vasto à medida que o processo se radicaliza, diminuíam também os seus apoios entre os militares do quadro. Além disso, o Copcon reagiu sempre mal às tentativas de controlo do PCP. O que seria determinante, já que o Copcon era, de facto, a única estrutura com força militar dentro do Exército.

Mas havia a Marinha...

Na Marinha era muito diferente. Quem controlava tudo era Rosa Coutinho, rodeado por Martins Guerreiro, Miguel Judas, Almada Contreiras e Correia Jesuíno. Era uma estrutura muito forte. E com boas relações entre si. O que não acontecia no Exército, onde pouco importava que Arnão Metelo estivesse no Copcon. Para as unidades, o Copcon era Otelo [Saraiva de Carvalho].

Só contavam as ordens de Otelo?

Isso viu-se no próprio dia 25 de Novembro. Otelo foi para Belém e o Copcon desapareceu. Para desespero de quem estava no Serviço Director e Coordenador de Informação (SDCI), na Rua Castilho, e que não conseguiu tomar conta de nada pela simples razão de que ninguém lhe obedecia.

Arnão Metelo estava no Copcon...

Mas nessa altura já ele sabia que não devia mobilizar ninguém. E também não havia ordens assinadas por Otelo... O que explica que o PCP tivesse, em determinado momento, tentado substituir Otelo no comando do Copcon...

Sem o conseguir...

Queriam lá pôr [o general] Pinto Soares, mas não tiveram tempo. E Otelo era um mito desde a Revolução. É por isso que eu digo que os Nove sabiam que podiam atacar e que ninguém os travaria...

Desde que não perdessem Otelo...

Otelo sempre teve uma relação muito estreita com Vasco Lourenço. Para Otelo, uma opinião de Vasco Lourenço pesava mais do que a de 200 pessoas do PCP.

Quem é que deu a ordem de sublevação aos pára-quedistas?

Foi a estrutura militar do PCP, que queria alterar a correlação de forças dentro da Força Aérea, forçando a nomeação de um novo chefe do Estado-Maior (CEMFA) e substituindo Morais e Silva por Costa Martins. O projecto não passava por nenhum golpe de Estado, já que eles sabiam não ter condições para isso. Na minha opinião, a ideia de que o PCP tentou tomar o poder a 25 de Novembro é um mito. O que eles queriam era mudar a correlação de forças na Força Aérea. E chegaram a chamar Rangel de Lima para ser CEMFA.

CEMFA ou vice-CEMFA?

Começaram por lhe oferecer a vice--chefia e acabaram por lhe dar a chefia. Queriam ganhar forças para um outro combate, noutra oportunidade. Mas Rangel de Lima não aceitou, deixando claro que não seria testa-de-ferro de ninguém. Daí a mobilização dos pára-quedistas.

Ordem que partiu do PCP ou do SDCI?

Do que sei, a ordem partiu de Pereira Pinto e Ramiro Correia, que estavam no SDCI. E que fez o PCP para os apoiar? Quando viu a mobilização do adversário, percebeu que ia perder. Foi mais ou menos nessa altura, a meio da noite do dia 25, que o PCP optou por falar directamente com Costa Gomes, tentando evitar a sua ilegalização. E Costa Gomes pediu-lhes, em troca, que o PCP retirasse os civis que rodeavam as bases militares e os depósitos de armamento, o que os comunistas fizeram.

É isso que explica que Rosa Coutinho e Martins Guerreiro tenham ajudado a travar a saída dos fuzileiros?

Sim.

Mas também houve quem estivesse na Rua Castilho e se tenha transferido para o Copcon. Dá a sensação de que havia duas dinâmicas a do PCP, que negoceia, e a de alguns militares gonçalvistas que forçam os acontecimen- tos...

Havia pessoas que pensavam que o poder estava ao seu alcance e outras que temiam pelo futuro, se se entregassem assim, sem mais nem menos. Por isso, existiram várias dinâmicas. Mas Varela Gomes, por exemplo, aludiu sempre às dificuldades que existiam na Rua Castilho, onde foi montado um posto de comando à pressa e onde não existiam facilidades de comunicação.

Não é por isso que se mudam para o Copcon, onde existia uma estrutura?

Mas o facto de não terem um posto de comando é o que revela que o objectivo deles não era tomar o poder. Como não tinham mais nada, tentaram encostar-se ao Otelo, esperando que ele os apoiasse. Mas, para mim, a questão fundamental é a do posto de comando. Sem um comando operacional não se pode fazer nada. Isso é básico.

O Grupo dos Nove tinha um...

Tinha um posto de comando e tinham planos e missões atribuídas. Ao contrário dos gonçalvistas. Mas a dinâmica também não lhes era favorável. Nem no que respeita à Europa, nem dentro das forças armadas. É isso que os leva a actuar recuperar a influência perdida entre militares.

Mas há ou não uma Esquerda Militar mais próxima do PCP e outra menos, que se movem em sentidos diferentes na noite de 25 para 26 de Novembro?

As pessoas que vão da Rua Castilho para o Copcon são só as pessoas que o PCP desejava já que não atrapalhassem mais. Até porque, nessa altura, já não havia nada para fazer no Copcon. Basta ver o que aconteceu com Varela Gomes. Falou para o Alfeite, convenceu um antigo camarada da Academia, mas depois apareceu o Rosa Coutinho e acabou com tudo. Tentou falar para a Marinha, mas sempre que o fazia atendia o Martins Guerreiro, que lhe desligava o telefone. Portanto...

Mas houve quem tivesse sido preso e quem não tivesse...

O PCP sempre soube quem eram os seus aliados estratégicos. E a única preocupação que tinha é que eles não falassem. Para isso, tinham de ir para o estrangeiro e o PCP tinha de lhes encontrar um sítio onde pudessem ser úteis. Foi o que aconteceu. Uns foram para Moçambique, outros para Angola.

E o PCP adoptou nova estratégia....

Adaptou-se a uma estratégia legal e parlamentar. O que não invalida que o PCP tivesse, ao longo destes anos, pedido às pessoas que não falassem. Por isso é que é tão difícil perceber o que aconteceu.

Mas o resultado prático do 25 de No- vembro não foi muito para além do que o PCP esperava, quando negociou com Costa Gomes?

Talvez, mas continuaram a existir de forma legal, mantiveram as sedes e continuaram com a sua acção. O contrário significaria, muito provavelmente, alguns fuzilamentos. Desta forma, o PCP evitou também uma guerra civil que teria sido muito má para Portugal e para a Europa. Não creio que tenha sido mau para ninguém. Em Espanha uma situação destas teria dado origem a outra guerra civil.

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