O estranho mundo de Tiago Manuel

O português Tiago Manuel isolou as primeiras letras dos seus dois nomes e encheu-as de heterónimos. Heterónimos que produzem muitos (e bons) livros - da irlandesa Terry Morgan ao inglês Tim Morris, do americano Tom McCay ao coreano Murai Toyonobu (todas as suas extensões têm uma pequena biografia), Tiago Manuel divide-se em nomes e multiplica a sua criatividade por obras literárias de difícil classificação, que habitam um estranho cruzamento entre a ilustração, a pintura e a banda desenhada.

Que a sua estranheza acaba por se entrenhar, como há muito concluiu o seu colega de heteronímia, prova-o a abundância bibliográfica dos últimos anos, com os seus livros a serem publicados por várias editoras, aparentemente pouco preocupadas com os problemas de catalogação.

Tiago Manuel começou por dar nas vistas na pele do coreano Toyonobu em Nautilus the Ship, uns pequenos livros de BD - na verdade, um conjunto de traços negros protagonizados por um navio futurista, onde o elemento humano está ausente - já de si bastante bizarros, publicados pela Bedeteca. Mas com o correr do tempo e o engordar do reportório, a originalidade das suas propostas tem vindo a acentuar-se.

É verdade que essa heteronímia não tem por vezes a consistência e a diversidade que o seu autor provavelmente gostaria - no caso dos três livros em apreço, são muito mais os pontos de encontro do que as divergências entre Tim Morris e Terry Morgan-, mas isso é um detalhe diante da imaginação da proposta. Acima de tudo, Tiago Manuel ocupa um lugar ímpar entre os desenhadores - ou talvez seja melhor dizer entre os artistas plásticos - nacionais.

Imaginem um René Magritte sem dinheiro para as telas nem para as tintas, e não estarão muito longe daquilo que por aqui se encontra - o imaginário de Tiago Manuel é feito de um surrealismo de papel de jornal, uma abordagem tosca (no bom sentido da palavra) do mundo dos sonhos, um olhar freudiano sobre os objectos, e os sentimentos, que preenchem o nosso quotidiano.

Como se desenha a estupidez e a ignorância? Que sapatos deve calçar um indeciso? Que potencialidades se escondem por detrás da palavra "cadeira"? Como representar com três ou quatro cores a "vivência atormentada das relações amorosas"? Como dizer "a dor" a preto e branco? A tudo isto Tiago Manuel, através de Tim Morris, através de Terry Morgan, dá resposta nestes três livros, que convidam como poucos aos mais elaborados exercícios mentais.

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