O boato que mudou a vida de Calado

Boato "notícia ou versão geralmente maledicente, anónima e sem confirmação que se divulga acerca de alguém, de um acto ou de um acontecimento. O mesmo que rumor". Associe-se o boato (nesta definição do Dicionário da Academia das Ciências) ao medo, ao preconceito e ao ódio que estão na génese da homofobia e o resultado pode alterar de forma irreversível a vida do alvo. "Não se consegue desfazer um boato." A frase definitiva é de José Calado, 30 anos, jogador do Poli Ejido, um clube de futebol da II Liga espanhola. Foi dita agora ao DN, mas remete para um dia, há cerca de cinco anos, em que, ao serviço do Benfica, preferiu ficar nos balneários, hipotecar a sua braçadeira de "capitão" e sujeitar-se a um inquérito disciplinar a ter voltar ao relvado e enfrentar o coro de apupos dos adeptos.

A 2 de Outubro de 2000, jogava- -se, no Estádio da Luz, a 6.ª jornada da I Liga Portuguesa de Futebol entre o Benfica - então treinado por José Mourinho - e o Sporting de Braga. Ao intervalo, a equipa da casa perdia por 1-0, mas a segunda parte trazia novidades no plantel. O "capitão" da equipa da Luz ficara nos balneários e a braçadeira mudara de braço. Especulou-se sobre os motivos exibição apagada, lesão, mera opção técnica. A razão só seria revelada mais tarde: o jogador recusara-se a voltar ao relvado e isso iria custar-lhe um inquérito movido pelo Benfica. Nada desculpava "atirar a braçadeira ao chão". A metáfora do desrespeito ao clube era usada por benfiquistas, comentadores, seguidores do futebol. "Calado está a ser alvo de um processo de inquérito instaurado pelo clube na sequência de um facto, não explicitado, ocorrido durante o Benfica-Braga, encontro em que o 'capitão' da Luz apenas participou até ao intervalo", noticiava o DN de 5 de Outubro. No mesmo dia, A Bola fazia manchete "Calado Explode!" e desenvolvia: "No intervalo do jogo com o Sporting de Braga, o 'capitão' encarnado perdeu a cabeça e disse não ter condições para continuar a jogar, acusando o clube de não defender os jogadores." A justificação para a recusa de Calado em disputar a segunda parte daquela partida nunca foi avançada oficialmente pelo Benfica, mas estava ligada ao teor dos tais apupos que vieram das bancadas e visavam directamente o jogador, alvo de um boato que o envolvia numa alegada relação homossexual com um cantor de uma boys band.

O jogo terminou empatado (2-2), mas os jornais dos dias seguintes encontravam ali notícia para lá do resultado. Confirmavam o inquérito a Calado e reproduziam posições de dirigentes e do treinador sobre um "caso" para o qual os adeptos pediam explicações. "Calado é meu jogador, mas primeiro está o Benfica", dizia Mourinho. "É um assunto do foro interno do clube que será resolvido o mais brevemente possível", declarava Álvaro Braga Júnior, vice-presidente executivo da SAD do Benfica. José Ribeiro e Castro - actual presidente do CDS -, na qualidade de "ilustre benfiquista", classificava o "ataque" a Calado de "cobarde e nojento". A cerca de duas semanas do confronto eleitoral com Manuel Vilarinho para a presidência da SAD encarnada, Vale e Azevedo, o então presidente, preferiu refugiar-se no silêncio.

Depois de multado pelo clube e já sem braçadeira, Calado voltou aos treinos. Sucederam-se manifestações de apoio por parte de colegas e adeptos. António Veloso, ex-jogador do Benfica, chegou a organizar um almoço para mostrar a solidariedade do plantel a Calado. "O boato foi uma forma de o atingir. Foi usado mesmo pelos adeptos benfiquistas. Quando as coisas correm mal tudo serve para ofender", referiu ao DN ainda sem encontrar uma justificação para um rumor, cujas consequências atribui à mentalidade do povo português e não apenas aos adeptos do futebol. José Calado vai mais longe na análise e fala da imagem que se espera de um futebolista. "As pessoas têm uma ideia feita sobre a vida dos jogadores, associada a muitas mulheres, farra, uma vida de cinema. É uma irrealidade. A homossexualidade não faz parte disso e ser confrontado com um boato desses no meio desportivo é muito complicado. Cada vez que andava pela rua com a família tinha de enfrentar bocas e olhares de gozo."

Por esses dias, nas páginas d'A Bola, o comentador Rui Santos arriscava "A versão de que Calado se recusou a voltar ao relvado por causa dos impropérios que os adeptos os adeptos lhe dirigiram pegou como fogo em estopa. As consequências do boato são previsíveis: dificilmente Calado encontrará estabilidade para prosseguir uma carreira no Benfica e mesmo em Portugal." Tirada que haveria de revelar-se profética, apesar de previsível. No final da época 2000-2001, Calado assinava pelo Bétis de Sevilha e, cinco anos depois, joga num clube de meio da tabela da II Liga espanhola. Não voltou a jogar em Portugal. Culpa do boato? "A saída do Benfica, indirectamente, talvez tenha tido um pouco a ver com isso. Mas estava no clube há sete anos e achei que o meu ciclo ali tinha chegado ao fim. Quando surgiu a oportunidade de jogar no melhor campeonato do mundo, para o Bétis de Sevilha, achei que não tinha de pensar duas vezes", declara, olhando para esses dias de Outubro de 2000, como os "piores" da sua vida. "Naquele jogo tive de ouvir de tudo. Os adeptos descarregaram em mim o desagrado com o resultado. Chamaram-me todos os nomes. Foi horrível. Não aguentei", lembra.

E quando, naquele dia 12, decidiu dar uma conferência de imprensa, tentado justificar o comportamento do fim-de-semana anterior, mas sobretudo desmentir o boato, achou que podia defender-se do indefensável. "Não sei de onde veio, nem quem se lembrou de dizer aquela mentira que de repente se tinha propagado... O boato é uma coisa muito cobarde. Não se consegue encontrar o autor e isso torna a defesa impossível." O tempo também torna a análise mais fria, mas nem por isso apaga a memória dos efeitos imediatos "Cheguei a pensar deixar de jogar futebol, que é o que mais gosto de fazer. Toda a gente falava daquilo. Ainda hoje, quando vou a Portugal e ando pelas ruas de Lisboa, sinto que continua vivo na cabeça das pessoas."

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