"O amor é inexprimível e só a palavra o imortaliza"

A génese do amor, título do seu livro, é também a da escrita?

Em certa medida, tenta sê-lo, sim. Ou de uma génese mais larga ainda. Daí o penúltimo poema, a segunda Última meditação de Camões, em que eu digo "Foste, palavra minha, o mantimento que trouxe de jornada / E alimentaste a génese de tudo nas visões mais amargas". Não pretendo, naturalmente, dar nenhuma resposta para o que é a génese do amor, porque não tenho respostas. E depois, perdendo-se o mistério, perdia-se também a razão de ser da procura?

Trata-se, de alguma forma, da mesma questão que o hermeneuta desenvolve ao fazer a pergunta fundadora De onde vem o mundo?

Se calhar, trata. Porque génese significa nascimento, mas significa também origem, e o próprio poema acaba por ser a dimensão de um mundo. Como o amor.

Não será por acaso que, no seu livro de poemas, há uma remissão do título para o Génesis?

Confesso que, quando escolhi o título, não pensei nisso. E ele surge numa das fases finais da preparação do livro, nascendo por causa do último poema, que se chama precisamente A génese do amor . Tal como o primeiro texto, tem um tom diferente dos diálogos (ou reflexões) que constituem os restantes poemas.

É uma conhecedora da Bíblia, dela ficaram-lhe, "versículos que de noite cintilavam". Há ressonâncias neste conjunto de poemas de livros como o Cântico dos Cânticos?

Pelos vistos, há, embora isso também não tenha sido propositado da minha parte. E digo "pelos vistos", porque é Paula Morão quem assinala essas ressonâncias. E deve ter razão, até porque eu acho a Bíblia um dos livros mais extraordinários jamais escritos. Tem coisas absolutamente fantásticas (o Eclesiastes, por exemplo). O Cântico dos Cânticos podia muito bem ter sido conscientemente utilizado por mim neste livro o que nele me fascina são os diálogos, é todo o discurso, muito assente no amoroso e no insinuantemente erótico, e também o facto de não haver uma atitude de dominação por parte do homem, ou de subserviência ou secundarização por parte da mulher.

A Génese do Amor abre com uma secção que entendeu chamar Topografias em quase dicionário. Considera-a, como referiu Paula Mourão, um prólogo programático?

É engraçado o que acontece com esse poema. Inicialmente, ele não estava, como depois ficou, escrito em forma de diálogo interno (ou interior), inicialmente até tinha partes nove, se não me engano, com números e tudo. Só muito mais tarde é que eu decidi alternar com itálicos e assim, de alguma maneira, criar essa cisão, ou forma dialogante, no poema. Por isso, sim, é como se ele anunciasse uma estrutura dialógica que depois se desenvolve ao longo de todo o livro. Além disso, os últimos versos são "Talvez só este abismo/Interrompo no mapa o precipício?/No traço dos teus dedos,/rota onde quase cabem: sereia,/o alaúde, o tempo,/ Nessa rota/o suspendo", e eu acho que a referência à sereia, ao alaúde e ao tempo acabam por inaugurar o que vem a seguir, são uma espécie de mapa para o precipício do amor.

Atravessa o seu livro a ideia, aparentemente contraditória, de que o amor, a partir de uma certa fronteira, é inexprimível, sendo ao mesmo tempo pela palavra que ele se imortaliza. Concorda , ou não?

Tive a oportunidade de dizer, numa entrevista, que este livro, ao ser sobre o amor, é também sobre o efémero do amor humano. Em larga medida, o amor é inexprimível, porque não se explica. E é mortal. A única coisa que o pode imortalizar é a palavra.

No seu entendimento, o corpo do amor transforma-se, nesta sua série de poemas, em corpo histórico, na medida em que se edifica no conhecimento da tradição portuguesa (ao conjugar neles sobretudo motivos maneiristas e renascentistas), e não só?

Penso que o corpo do amor se confunde com o corpo histórico, sim, embora dele também se autonomize. Quero dizer, eu servi-me de Petrarca, de Dante, de Camões, sobretudo, do que edifica a nossa tradição lírica, para poder falar sobre o amor. Não quis, com isso, glosar Camões, mas prestar homenagem à tradição, ao mesmo tempo que subvertê-la.

Camões viu-se dividido entre o límpido apelo dos sentidos e toda uma platonizante teoria do amor. Neste livro, a sua poesia tanto parte dos sentidos para deles se desprender como o inverso?

Absolutamente! Porque é como se se vivesse no paradoxo que é a presença e a ausência, a distância e a proximidade, o nada e o tudo. Por isso é possível, no primeiro diálogo, Camões dizer a Natércia "Devagar, minha amada,/fomos ficando amigos/No teu olhar brilha ainda/um perfume, mas tão longe" e, quase como em simultâneo, Natércia responder "Corre, embora, por mim,/ brando e suave,/ meu rio que ainda amo/em mil tormenta". Nem sei se é divisão, se é a convivência do aparentemente antagónico?

O que o lirismo ocidental sempre exaltou não é tanto o prazer dos sentidos ou a paz fecunda dos amantes, mas a paixão do amor, que comporta sempre dor. Desta morte, deste desamparo, do obstáculo mítico falam também os seus poemas?

Claro. Mas essa questão liga-se à anterior. No fundo, é, como se lê noutro poema, o "abismo de te ter aqui" poder também celebrar a "vertigem de não ter-te".

Há falas de mulheres neste livro, por onde passam figuras tutelares como Camões, Dante, Petrarca Natércia, Catarina, Beatriz, Laura... Podem entender-se como variações musicais, vozes, e não como insistência programática no tratamento da temática do feminino?

Tentei, neste livro, dar algum protagonismo às mulheres, àquelas que foram, na história da literatura, musas somente. Isso não é levado ao ponto em que elas se tornam, por assim dizer, actrizes sociais dos seus destinos. Portanto, nesse sentido, não há uma linha programática, ou ideológica. Todavia, há uma tentativa de subversão se Natércia diz a Catarina (que não passa de anagrama criado a partir de si por Camões) "tu, corpo de verdade/eu, na verdade, nada", ela está, no fundo, a falar de um estatuto que reduz as mulheres ora a um corpo sem nomeação, ora a um nome sem corpo, de papel só, "matéria insensata da palavra".

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