"Não imagino a minha vida sem o 25 de Abril"

Almada, 18 de Agosto de 1975. Perante uma plateia inflamada que o interrompe e o aplaude a cada instante, o primeiro-ministro do V Governo Provisório, em mangas de camisa, entusiasma-se e radicaliza o seu discurso, enquanto tira e põe os óculos, numa interpretação cénica que acabaria por assustar a maioria dos portugueses.

Mas quem estava presente em Almada, para mais uma manifestação de apoio à crescente radicalização do ProcessoRevolucionário em Curso(Prec), como então se dizia, deixou-se contagiar pelo ambiente, gritando, cada vez mais alto, Força, força/Companheiro Vasco/Nós seremos/A muralha de aço.

A força destas imagens entraria para a História, marcando Vasco Gonçalves, que morreu ontem, aos 83 anos, vítima, aparentemente, de uma síncope cardíaca, quando nadava numa piscina no Algarve.

No comício de Almada nasceu também o mito do gonçalvismo, símbolo de todos os radicalismos que envolveram os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA), levando ao afastamento gradual de alguns protagonistas do 25 de Abril. Como o general António de Spínola, que viria a renunciar à Presidência da República em Setembro de 1974, mostrando a sua impotência para deter a marcha da revolução e, sobretudo, da descolonização dos territórios africanos.

Nessa altura, já Vasco Gonçalves era primeiro-ministro, tendo sucedido a Palma Carlos.

Nascido em 1921, Vasco dos Santos Gonçalves era filho de um salazarista que chegou a jogar futebol no Benfica, tendo mesmo participado num dos primeiros confrontos entre Portugal e a Espanha antes de se dedicar a uma pequena casa de câmbios em Lisboa.

Quando morreu, em 1968, já o filho era tenente-coronel, oriundo da Academia Militar e da arma de Engenharia, e tinha passado pela Índia e pela guerra colonial em Moçambique. Promovido a coronel em 1971, quando se encontrava em Angola, Vasco Gonçalves acabaria por ser o mais graduado dos militares que estiveram na origem do MFA.

Para atrás ficara a sua participação num ensaio de insurreição militar que chegou a estar prevista para 12 de Março de 1959.

Membro da comissão que ajudou a escrever o Programa do MFA e da Comissão Coordenadora do movimento já depois da revolução, Vasco Gonçalves integrou o Conselho de Estado antes de ser indigitado como primeiro-ministro em Julho de 1974. Colocado à frente de um governo provisório que incluía muitos militares, alguns independentes e vários dirigentes do PS, PCP e PPD, foi um dos grandes responsáveis pelas nacionalizações decretadas em Março de 1975, incentivando as ocupações de terras, antes de decretar a reforma agrária.

A partir daí, Vasco Gonçalves, o PCP e a extrema-esquerda ficavam com o caminho livre para impulsionar o processo revolucionário, apoiando-se no movimento sindical e incentivando todas as reivindicações populares. A radicalização então verificada e a progressiva identificação de Vasco Gonçalves com o PCP - força minoritária em Portugal, como ficou bem patente nas primeiras eleições livres, realizadas em Abril de 1975 - conduziram a uma clivagem nas Forças Armadas, com a vitória da linha moderada.

O Verão termina com Vasco Gonçalves fora do Governo, dias depois do discurso de Almada.

Vasco Gonçalves não voltaria a exercer outras funções políticas, continuando, no entanto, a ser lembrado como um ícone de uma certa revolução. Continuou a desfilar na Avenida da Liberdade a cada celebração do 25 de Abril e a saudar os sindicalistas da CGTP nas comemorações do 1.º de Maio.

Nas raras entrevistas que foi dando, mostrou-se sempre fiel aos seus ideais. "Não imagino o que seria a minha vida se não tivesse participado no 25 de Abril", diria a Maria Manuela Cruzeiro, no livro-entrevista Um General na Revolução.

A sua última aparição pública, numa cerimónia institucional, decorreu a 25 de Abril de 2004, quando regressou à residência oficial de São Bento, a convite do então primeiro-ministro Durão Barroso, para assistir à inauguração de uma galeria de ex-chefes de Governo onde se encontra o seu retrato. Nessa altura, Durão e Vasco trocaram palavras amáveis, o que seria impensável anos antes.

Por ironia do destino, nas imagens recolhidas nesse dia, o "companheiro Vasco" figurou ao lado do maior dos seus adversários políticos Mário Soares, que o enfrentou com sucesso e apressou a sua queda no Verão mais quente de que há memória em Portugal.

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