Nada acidental

O Barnabé, sem dúvida o melhor lusoblogue de esquerda, virou livro no ano passado. O Acidental, o mais conhecido lusoblogue de direita [com o Blasfémias] seguiu este ano o mesmo caminho. Curiosamente, o Barnabé nasceu para combater o "monopólio" da direita. E O Acidental nasceu para combater o "monopólio" da esquerda.

Criado em Abril de 2004 por Paulo Pinto Mascarenhas, O Acidental (www.oacidental.blogspot.com) surgiu num contexto que a imprensa tem sublinhado o aparecimento de uma nova geração de intelectuais urbanos e trintões que se assumem descomplexadamente de direita e esboçam um espaço ideológico consistente, com alguns traços conservadores e algumas inclinações liberais. O Acidental leva esse combate muito a peito e arregimentou dezena e meia de bloguistas que alimentam o site com inúmeros posts e polémicas. A meio do caminho, o blogue passou por uma prova ingrata a defesa de um governo tosco e impopular. A blogosfera é por natureza do contra, e estar a favor é sempre melindroso (quando alguns elementos do Barnabé defenderam o governo socialista, o blogue acabou num instantinho). Mas, com o socratismo, os acidentais regressaram ao seu estilo mais contundente e desenvolto.

Como sempre acontece nos blogues colectivos, os colaboradores de O Acidental vão desde o excelente (Luciano Amaral) ao mediano e ao dispensável. A selecção de textos passou por cima de momentos mais embaraçosos, como os assomos de ortodoxia partidária e os devaneios gongóricos. Estes textos reunidos em volume pela Hugin têm doutrinação ideológica, guerrilha quotidiana, desmistificação entusiasmada. Claro que não há nada de realmente novo. Louçã, o PREC, Michael Moore e Freitas levam na tola. Bush, o 25 de Novembro, Blair e Rocco Butiglione são elogiados. Mas ninguém lê blogues políticos para ter surpresas. Já a ausência de posts sobre cultura sugere que o tão anunciado "combate cultural" ainda não aqueceu os motores.

Mas o tom dos textos, informado sem ser pomposo, agressivo sem ser intratável, irónico mesmo em causa própria, torna o blogue (e esta antologia) recomendável para quem acompanha a estrepitosa negação de um suposto crespúsculo das ideologias.

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