Uma colectânea e quatro inéditos em CD para a discografia tradicional

Três novidades absolutas em suporte digital e uma compilação de material remasterizado de vários grupos. A editora Movieplay decidiu ir ao fundo do catálogo e regressou com quatro preciosos contributos para o restauro da discografia da música tradicional por- tuguesa recuperou dois originais dos Terra a Terra e um dos Raízes, que até agora se mantinham presos nas caves do vinil, e reuniu o primeiro volume da colectânea Canções da Minha Terra.

Com estes lançamentos, explica a editora pela voz de Vítor Macedo, "fica praticamente esgotado o catálogo que aguardava ainda transposição para CD". E embora haja algumas propostas em estudo - a reposição das gravações do colectivo Almanaque é uma delas - não há por enquanto calendário definido. É que "este é um esforço que a editora realiza mais pelo brio de manter o catálogo vivo e quase por sentido de dever, porque uma edição destas não pode esperar vender mais que 300 ou 400 cópias", justifica. "Não fosse dispormos de fábrica e tipografia próprias, e os custos de produção transformariam estas apostas num suicídio comercial."

terra a terra. Por tudo isto, conclui Vítor Macedo, "mesmo entre o pouco que resta no catálogo, é preciso apostar nas obras integrais de maior importância". E essa aposta passa agora pelos Terra a Terra, grupo de vida curta, mas de contributo marcante para o património discográfico do género.

Reunida em 1977 (então sob o nome Terra Sem Anos), a formação inicial incluía Mário Piçarra (filho do cantor Luís Piçarra), Ana Faria (mais tarde conhecida pelos seus Queijinhos Frescos), Jaime Ferreira, Rosário Pires, Jorge Vieira, Eduardo Torres, Mário Luís Pontes e Luísa Vasconcelos. Dançando Polirando (1980) e Pelo Toque da Viola (1981), os dois primeiros discos, há muito deram o salto do vinil para o digital (embora hoje difíceis de encontrar). Restavam estes dois títulos que completam a discografia de originais (há ainda uma colectânea incluída na série O Melhor dos Melhores). E é de agradecer a quem se lembrou de remendar esta falha, pois se se é verdade que todo o disco sai beneficiado de um regresso a estúdio para restauro, isso é especialmente verdade neste caso, por se valorizar o cuidado que o grupo sempre empenhou na harmonização de vozes.

É o que sucede com Estilhaços (1983), álbum já sem o excesso de voluntarismo amador e a ingenuidade musical característicos da música tradicional de finais de 70 e inícios de 80. Embora tudo pareça ainda funcionar segundo a militância generosa que transportava para a música o ideário político que marcava a época e o meio - bastará reparar na ficha comunitária de cada tema, onde se indicam apenas os instrumentos utilizados e não os créditos de cada instrumentista -, o profissionalismo é já audível. Dos 17 elementos que chegaram a integrar as fileiras dos Terra a Terra, sobram aqui dez e sente-se como o tempo depurou a qualidade instrumental e da composição. O arranjo para quinteto de cordas e vozes dado à belíssima moda alentejana Fui te Ver Estavas Lavando, tema que serve de abertura ao disco, é disso o melhor exemplo. Um caminho de aprumo instrumental a que foi dado seguimento no derradeiro Lá Vai Jeremias (1985), de que se pode destacar o tema que dá nome ao álbum - gravado 16 anos antes por José Afonso em Contos Velhos, Rumos Novos (1969).

raízes. Já o álbum de estreia dos Raízes - grupo propositadamente nascido a 25 de Abril de 1980, em Vila Verde, Braga, para assinalar o aniversário da revolução - devolve-nos de corpo inteiro a esses primeiros tempos em que se fazia a redescoberta urbana da música que nasceu com o trabalho da terra, ainda sem a distância bem medida entre os dois mundos. E faz-se memória dessa época em que os grupos se dispunham em palco numa fila única, horizontal e igualitária. Inteiramente dedicado à Região do Minho, este Raízes (1982) não chega a reunir 23 minutos de música, mas revela-se uma agradável surpresa a 23 anos de distância - é difícil não ficara a assobiar o instrumental Flor de Chá -, sobretudo depois do polimento dado em estúdio ao som dos cavaquinhos e das braguesas.

compilação. E o fascínio pela cosmética da remasterização de som é, de facto, irrecusável. Na mesma colecção - a Traditio - em que arruma estas estreias em CD , a editora lança agora o primeiro volume de Canções da Minha Terra, uma compilação a que Vítor Macedo promete que será dado seguimento, "possivelmente ainda antes do fim do ano". Aqui se reúne material já antes digitalizado - Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Realejo ou Navegante, para além de outros temas dos Terra a Terra e dos Raízes - com outro que, justifica o porta- -voz da Movieplay, "não fosse em formato compilação, dificilmente voltaria a ser editado" - como será o caso dos esquecidos Ó Ai Ó Linda. O resultado é um roteiro possível do trabalho de estilização que tem sido realizado à volta da música portuguesa de tradição oral, ao longo das últimas duas décadas, e que deverá em breve ter continuação num segundo volume em que a Movieplay pondera "incluir também - depois de negociados os necessários licenciamentos e autorizações - grupos sobre cuja obra detém direitos", casos da Brigada Vítor Jara ou dos Gaiteiros de Lisboa.

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