Pobreza acentua onda de cepticismo

São Tomé e Príncipe comemora hoje o 30.º aniversário da sua independência, num contexto social difícil, com os níveis de pobreza a atingirem números preocupantes. A pobreza afecta mais de 53% da população, sobretudo a rural. Os funcionários públicos exigem um aumento salarial na ordem dos 350%, ou seja, a fixação do salário mínimo nacional em cem dólares.

Contactado pelo DN, Belmiro Lima, que trabalhou 50 anos em diversas empresas estatais, lamenta a sua magra reforma, 137 mil dobras mensais (cerca de 11 euros). "Isto é dinheiro para um homem de 75 anos?", pergunta; e conclui que os 30 anos de independência foram um fracasso.

Rodrigues Borges, com mais de 60 anos, considera que os 30 anos de existência de São Tomé e Príncipe como nação independente se resumem à má gestão dos recursos. Reconhece que agora se sente mais livre, mas recorda que antigamente vivia melhor.

Apolinário Pereira, que nasceu no Dia da Independência e hoje anda pelas artérias da cidade de São Tomé a trocar divisas, afirma que foi forçado a enveredar pelo negócio de cambista há mais de 15 anos, por falta de emprego, situação que afecta um terço da população activa.

Em pleno coração da cidade de São Tomé, Manuel Alves, comerciante há 40 anos, refere que a população vive com muitas dificuldades, nomeadamente falta de água potável, electricidade e assistência médica "Antes da independência, havia luz e água em muitas zonas", remata.

Raúl D' Alva Costa também não esconde a sua insatisfação "Vejo muita miséria neste país." Este feirante de 86 anos acha que a vida vai ficando cada vez mais difícil. "Ninguém quer trabalhar, toda a gente quer vida fácil", diz, céptico quanto ao futuro. Para ele, regista-se cada vez mais uma injustiça social na distribuição da riqueza. "Os que têm mais é que têm acesso a tudo."

Leonel Mário d'Alva, um dos fundadores do CLSTP ( Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe) que deu origem ao MLSTP, ao caracterizar os 30 anos de independência, reconhece o acto político da conquista da liberdade e da cidadania, mas afirma que a governação destes anos foi ineficaz e que o país está numa "decadência".

Mário d'Alva que é o actual líder do Partido de Convergência Democrática (PCD) fala de uma administração pública inoperante, que não promove o desenvolvimento. Apesar de tudo, d'Alva acredita que há "condições para uma vida melhor".

Na opinião dos economistas contactados pelo DN, a crise financeira acentuou a pobreza. A maioria da população vive com menos de um dólar por dia, sendo que 30% deste grupo vive com um terço de dólar por dia. Há uma faixa ainda em pior situação.

Para o economista Manuel Lopes, "as agitações cíclicas na gestão económica do país e a baixa produção do principal produto de exportação, o cacau, agravaram a situação". Uma das soluções passa pela capacidade de gestão de recursos internos, afirma.

Para o economista Zeferino de Ceita, a situação económica é "caótica" porque a gestão económica não permitiu a melhoria de bem-estar da população. Falando do desempenho económico do país, Zeferino Ceita, ex-deputado do PCD entre 1991-1994, receia que a curto prazo a situação não melhore, apontando como exemplo a má gestão do fluxo das ajudas que entraram no país nos últimos 30 anos, por exemplo os fundos de Taiwan, cujos resultados foram negativos.

"Temos que construir a nossa capacidade de auto-gestão, facto que não aconteceu ao longo destes 30 anos de independência", afirma Zeferino, que foi director do gabinete de privatização das empresas não agrícolas. Admitindo a existência de algum esforço para melhorar a actual situação sócio-económica, sobretudo com a gestão dos recursos da exploração do petróleo, o economista afirma que os investimentos devem estar direccionados para a capacidade interna de gestão.

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