O discurso da vida de Soares no comício da Fonte Luminosa

Naquele que viria a ser o primeiro dia do resto da sua vida, Mário Soares almoçou em Sintra com o futuro primeiro-ministro francês Michel Rocard. Falaram longamente de vinhos, como se Portugal vivesse em plena normalidade e aquele fosse um Verão como todos os outros. Mas não era. Poucas horas depois o Soares tranquilo dava lugar ao Soares indignado, gritando em cima de um palco duras palavras de ordem que alteraram o curso da revolução portuguesa. Foi o dia em que a "maioria silenciosa" do País decidiu enfim descer à rua, com o PS à frente, contra todos os radicalismos da esquerda civil e do Movimento das Forças Armadas (MFA).

Nove dias antes, o PS havia abandonado o IV Governo Provisório, liderado pelo general Vasco Gonçalves. A tomada do jornal República por tipógrafos conotados com a esquerda radical fora a gota de água numa série de divergências entre Soares e o PCP, de Álvaro Cunhal (ver páginas 3 e 4). Divergências iniciadas em Janeiro de 1975, com o aceso debate sobre a unicidade sindical, que o PS combatia em nome da livre constituição de sindicatos, e acentuadas nas celebrações do 1º de Maio, quando Soares foi impedido de subir à tribuna do comício "unitário" enquanto Cunhal brilhava nesse mesmo palco.

O PS era a força mais popular do País a 25 de Abril de 1975, vencera as eleições para a Assembleia Constituinte (com 38%), muito acima do PCP (que teve apenas 12,5%). Mas nas ruas, dominadas por manifestações diárias da esquerda mais radical, e nos órgãos de informação, na grande maioria controlados pelo PCP, o quadro apresentava-se bem diferente. Pareciam dois países dentro do País.

Para Soares, chegara a hora de fazer coincidir a maioria eleitoral e sociológica com a vontade das ruas. Para mostrar ao mundo que o Portugal de 1975 não era a Rússia de 1917 nem a Checoslováquia de 1948.

Nos primeiros dias de Julho, o estado-maior socialista reuniu-se para deliberar uma série de demonstrações de força, que deveriam culminar em dois comícios sucessivos sexta-feira, 18, no Porto; e sábado, dia 19, em Lisboa.

"A partir do momento em que as eleições se haviam realizado - e que o PS ganhara uma indiscutível legitimidade democrática -, estávamos em situação de cortar com o gonçalvismo [linha política pró-comunista, liderada por Vasco Gonçalves] e de fazer a nossa própria política", lembra Soares no livro Ditadura e Revolução, feito em parceria com Maria João Avillez.

O PS contava com o apoio de toda a Europa social-democrata, que em grande parte se encontrava no poder. Harold Wilson (Grã-Bretanha), Helmut Schmidt (Alemanha), Bruno Kreisky (Áustria), Olof Palme (Suécia) e Joop Den Uyl (Holanda) eram alguns dos amigos de Soares que dirigiam governos estrangeiros e lhe transmitiam mensagens de ânimo. E até alguns líderes comunistas, como o espanhol Santiago Carrillo e o italiano Enrico Berlinguer, manifestaram apoio ao PS no caso República.

um murro na mesa. Faltava escolher o local para a manifestação na capital. Quando alguns colegas da direcção do partido sugeriram um recinto de média dimensão, Soares deu um murro na mesa ele, pelo contrário, apostava no maior espaço disponível de Lisboa. "Mandem já marcar a Alameda!"

No dia 18, os comunistas e alguma esquerda militar procuraram barrar os acessos ao Porto. Sem êxito o comício no Estádio das Antas, que abarrotava de gente, foi um sucesso. E o melhor dos ensaios para a concentração de Lisboa.

Na própria edição do dia 19, o Diário de Notícias - dirigido pela dupla Luís de Barros-José Saramago - dava o mote ao bloqueio do comício na capital, com esta larga manchete "Povo e militares nas barricadas em defesa da revolução". A Intersindical convocava os trabalhadores a "integrarem-se nas barreiras". O PCP, em comunicado, ia mais longe: "É preciso cortar o passo à reacção! É necessário levantar barragens para impedir uma marcha sobre Lisboa."

Apesar das barricadas, a Alameda transformou-se num mar de gente - da Fonte Luminosa às imediações do Instituto Superior Técnico. Falando na instalação sonora, Manuel Alegre garantia que se encontravam ali 300 mil pessoas.

Durante quase quatro horas, sucederam-se os oradores, incluindo alguns deputados à Assembleia Constituinte Manuel Pires, Luís Filipe Madeira, Marcelo Curto. Lopes Cardoso, líder do grupo parlamentar do PS, denunciou a "acção irresponsável" do PCP, "semeando o ódio". Salgado Zenha, número dois socialista, disparou contra Vasco Gonçalves, chamando-lhe "um factor de divisão nacional".

Mas o mais inspirado foi Soares, que fez talvez o discurso da sua vida. "Nós não temos medo", bradou. Cada vez mais rouco, à medida que o discurso progredia, o líder socialista sublinhou "Não pode impunemente mentir-se ao povo português." Insurgiu-se contra os dirigentes do PCP, que queriam "amordaçar a voz do povo", e arrancou prolongados aplausos ao garantir: "Uma marcha sobre Lisboa só existia na cabeça desses paranóicos." Lembrou "os dois milhões e meio de portugueses que votaram no PS" e exigiu a demissão imediata de Vasco Gonçalves

A multidão gritava slogans que não se escutavam noutras manifestações "É preciso respeitar a vontade popular"; "O povo não está com o MFA". Virava-se uma página na revolução: a rua deixava de ser monopólio dos comunistas e da extrema-esquerda.

Michel Rocard estava lá para testemunhar. O Soares burguês e bon vivant que com ele almoçara em Sintra nada tinha a ver com aquele orador arrebatado no palco da Fonte Luminosa. De facto, Lisboa não seria Moscovo nem Praga. A História nem sempre se repete...

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