Dois físicos e um encontro misterioso em Copenhaga

Em 1941, o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976) deslocou-se até Copenhaga, na então ocupada Dinamarca, para visitar o seu colega e amigo Niels Bohr (1885-1962). O encontro haveria de mudar a relação entre estes dois homens, que terminariam aí a sua amizade. "Nunca te vi tão zangado com ninguém como naquela noite", haveria de recordar Margrethe, mulher de Bohr. Ninguém sabe ao certo do que falaram nos breves minutos em que estiveram a sós. Terão discutido sobre quê? O que se sabe é que, se já antes estavam em diferentes lados da barricada, a partir daí, seguiram caminhos bem distintos Heisenberg liderava a investigação atómica nazi que tentava mas nunca chegou a construir a bomba atómica. Bohr acabou por se exilar nos Estados Unidos, participando na construção da mais poderosa arma de destruição maciça.

O mistério aguçou a curiosidade do dramaturgo inglês Michael Frayn, que em 1998 escreveu Copenhaga. Apesar do tema aparentemente hermético - ao contrário do que diz a propaganda, a física ainda não é para todos - o espectáculo tem sido um sucesso em vários países, incluindo em Portugal onde se estreou em Abril de 2003, com encenação de João Lourenço. A reposição, a partir de hoje, no Teatro Aberto em Lisboa, pretende cativar os espectadores que não conseguiram ver Copenhaga há dois anos, aproveitando ainda o facto de em 2005 se celebrar o Ano Internacional da Física. Além disso, Frayn é agora um autor mais conhecido entre nós, depois de se ter visto, também naquele teatro, Democracia, espectáculo que recorda os últimos tempos do chanceler alemão Willy Brandt.

A Teoria da Incerteza, desenvolvida por Heisenberg em 1927, paira sobre toda a peça. Nunca se pode saber tudo sobre o comportamento. Werner Heisenberg e Niels Bohr confrontam as suas memórias daquele dia. Com incertezas. Contraditórias, claro. "Porque é que ele veio?", pergunta vezes sem conta Bohr. Alguns pensam que Heisenberg terá visitado Copenhaga para tentar convencer Bohr a integrar a sua equipa de investigação, patrocinada pelos nazis. Outros pensam o contrário. Que queria formar uma aliança global entre cientistas que impedisse a construção da bomba atómica. Terão discutido, como ainda hoje é actual discutir, o papel dos cientistas na sociedade. A utilização das descobertas científicas para fins políticos. A violência e a morte que pesam na consciência de alguns dos cérebros do nosso planeta. As interpretações são de Paulo Pires (Heisenberg) e Luís Alberto (Bohr).

"Porque é que ele veio?", pergunta também Margrethe. Com interpretação de Carmen Dolores, a mulher de Bohr, a única personagem não cientista e que, por isso mesmo, tem aqui um papel descodificador (sempre que os dois se põem com conversas mais complicadas), "quase como o coro", explica a actriz. "Ela faz as perguntas que os espectadores gostariam de fazer e chama-os a razão. É a visão de fora." Mas também ela não tem uma resposta para dar.

Carmen Dolores hesitou em aceitar este papel em 2003 (não fazia teatro desde 1998 e não tencionava regressar aos palcos). "Sou amiga do João Lourenço há muitos anos, ele estreou-se comigo na Inês de Castro, no Teatro Nacional, tinha apenas 12 anos. Ele deixou cá a peça apesar de eu lhe dizer que não, mas depois li-a, gostei e achei que talvez a conseguisse fazer. Aventurei-me." E agora, aventura-se outra vez, na reposição, apenas porque é "quase como se fosse o mesmo espectáculo". "Se bem que os espectáculos nunca são os mesmos, nem de noite para noite quanto mais com este interregno", afiança. Fica o aviso da actriz "Eu não quero dizer que esta será a minha ultima peça, mas se calhar ate é. Já tive mais dois convites para fazer teatro, mas não devo aceitar."

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