açores Crise sísmica assustou população de S. Miguel

"Há-de ser o que Deus quiser..."! Esta era ontem ao fim da tarde uma das frases suspirada pelas populações mais afectadas pela crise sísmica que abalou quase toda a ilha de São Miguel por volta da hora de almoço. Com o avizinhar da noite, começaram a ver-se pessoas a transportar cobertores e almofadas para as ruas em muitas das freguesias dos concelhos onde vários tremores de terra se fizeram sentir com mais intensidade e frequência na costa norte da maior e mais populosa ilha açoriana, o concelho de Ribeira Grande e, na costa sul, Vila Franca do Campo. Entretanto, António Costa, ministro da Administração Interna, está hoje nos Açores para acompanhar a evolução da situação.

As pessoas, com receio de ficar em casa, preparavam-se assim para passar a noite ao relento. Algumas porque o receio a isso ditou, outras porque as casas onde vivem todos os dias não lhes inspirava confiança numa situação de crise sísmica. De resto, a isso mesmo apelou o Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores (SRPCBA), que entrou no segundo nível de alerta mais grave, o alerta laranja.

Desde o dia 10 de Maio que a terra treme todos os dias numa actividade acima da normal, caracterizada essencialmente por micro sismos. Mas ontem, a partir das 12.10 (13.10 em Lisboa), os abalos tornaram-se mais fortes e a população sentiu a terra tremer. Cerca de uma hora depois, dois tremores de terra de intensidade de grau V/VI na escala de Mercalli modificada (numa escala de 12) abalaram praticamente toda a ilha. "Safanões" que fizeram cair loiças. Várias casas velhas e muros de pedra ruíram, verificaram-se pequenas derrocadas de terras e, nalgumas habitações, abriram-se fendas. Por essa hora, as pessoas fugiram para a rua assustadas e, principalmente na Vila Franca do Campo, a vida parou. Os estabelecimentos comerciais já não abriram as portas e as pessoas correram para ver as casas e ir buscar os filhos. À noite, num pavilhão de uma escola naquela vila foram montadas tendas para as pessoas pernoitarem.

O Governo Regional deu ordem para encerrar as escolas dos concelhos mais afectados pela acção sísmica mas só na Ribeira Grande uma menina sofreu um corte numa mão devido a vidros partidos. Durante o resto do dia a terra não parou de tremer. Na Igreja da Misericórdia, no centro da Vila, caiu a cruz da torre da igreja contribuindo para aumentar o medo dos populares que ainda assim conseguiram não entrar em pânico descontrolado. Rui Melo, presidente da Câmara local, mostrava-se mais preocupado com as crianças e os jovens "que nunca viveram uma crise sísmica e estão assustados".

Por precaução, a autarquia evacuou mais de uma dezena de idosos acamados para o pavilhão desportivo da escola, enquanto a Secretaria Regional da Habitação realojou duas famílias daquele concelho devido à pouca segurança das moradias. No terreno, a secretaria que tutela na Região a Protecção Civil colocou também quinze máquinas e 250 homens para em caso de necessidade intervir nas estradas. Ao mesmo tempo, bombeiros e PSP apelavam aos automobilistas para evitarem a circulação nas vias do centro da ilha. Em Porto Formoso, na costa norte, uma mulher com problemas cardíacos sentiu-se mal e foi transportada de imediato para o hospital.

Com os planos municipais de emergência accionados em três concelhos, uma das tarefas da Protecção Civil e governantes foi manter a calma. Carlos César, o presidente do Governo Regional, interrompeu a agenda e foi para o terreno, de onde recebeu uma chamada do primeiro-ministro a inteirar-se da situação que se vive nos Açores.

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