DN acompanhou em Ovar o eclipse de 1912

A caminho de Ovar, no comboio da noite, o repórter do DN não dormiu. Aproveitou para colher dados da conversa que ia animada entre os passageiros do "correio", cujo objectivo e destino eram comuns observar o eclipse solar que no dia seguinte, a 17 de Abril de 1912, seria visível na sua máxima intensidade numa zona de sombra que atravessava o Norte do País e incluía Ovar.

Nessa noite, o tema em debate entre os animados viajantes era, justamente, o eclipse. Seria total? Seria apenas anular? As opiniões dividiam-se. À época, os cálculos não permitiam ainda antecipar com certeza absoluta essa questão. Os próprios peritos dividiam-se, como conta o enviado especial do DN, num artigo intitulado "O eclipse do Sol", na edição do dia 18 de Abril de 1912.

O jornalista, de nome desconhecido, porque a peça, embora com honras de primeira página, não está assinada, explica que a "ansiedade pelo dia seguinte é grande". E escreve "Sabe-se que, apesar dos grandes progressos realizados pela astronomia na previsão de eclipses, há casos em que os cálculos não chegam completa e satisfatoriamente a resolver esse problema." Era o caso, nesse ano já recuado do século XX, e o DN fazia eco dessa "incerteza da ciência".

"Existem incertezas tais que os cálculos e as tábuas astronómicas não são suficientes para decidir se haverá ou não totalidade e em que sítios se produz, no caso afirmativo", explica o jornalista.

Divergiam sobre "ambas as questões as autoridades", o que acabou por dar origem a expedições científicas a diferentes pontos do território, no Norte do País.

"Assim se nota que os grupos de astrónomos e observadores se repartem, segundo as respectivas opiniões, por Ovar, Esmoriz e Penafiel, esperando cada um que o fenómeno aí se produza na sua fase mais interessante", relata o jornal.

O eclipse de 1912 foi, de facto, uma oportunidade importante para fazer novas medições e aferir as previsões feitas por uns e outros.

Quanto a si próprio, o enviado do Diário Notícias conta que escolheu Ovar, "como os astrónomos russos e os de Coimbra", e declara-se antecipadamente resignado face ao que vier a suceder. "Nós não temos a pretensão de querer fazer o maior número possível de observações, contentamo-nos em assistir aos efeitos gerais mais fundamente impressionantes, que diligenciaremos des- crever."

Mais à frente, percebe-se que o repórter não ficou desiludido com a sua escolha. "Às 11 horas e meia resta apenas do sol um arco estreitíssimo em forma de crescente muito agudo. As aves procuram, espavoridas, os seus ninhos e a paisagem toma o aspecto dúbio de uma noite de luar; algumas estrelas aparecem e a temperatura baixa então de modo muito notável; os espectadores interessados discutem com calor a probabilidade do eclipse ser total."

Mas o fenómeno não tinha ainda chegado ao auge. "De súbito, a escuridão torna-se extraordinariamente intensa; novo frémito de assombro se produz entre os observadores (...); do Sol quase totalmente encoberto resta apenas uma estreitíssima auréola, donde irradiam jactos de luz brilhantíssima de uma cor branca argêntea e duma magnificência incomparável", escreve o repórter.

Quanto à dúvida, que persistira até aí, desfez-se, não sem alguma polémica. "Em Ovar o eclipse foi anular, mas tão aproximado da totalidade que muitas pessoas negam que tivesse sido anular."

Para tirar teimas, o jornalista falou ainda com um astrónomo do Observatório de Coimbra, "o sr. dr. Costa Lobo, ilustre lente da Universidade de Coimbra e astrónomo do observatório do mesmo estabelecimento". Das suas observações, em 11 estações com "aparelhos de fotografia, um aparelho cinematográfico, uma luneta e um heliostato", dispostos numa linha perpendicular à faixa de sombra, resultou que o eclipse foi mesmo anular.

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