Da Elsa perdida na multidão à festa que se faz no Verão

Quando, em 1996, a farra festivaleira regressou a Vilar de Mouros, Portugal emergia de um jejum de 14 anos de festivais pop/rock em regime rural. Em Lisboa, desde o ano anterior, começava a ganhar forma o agora adulto Super Bock Super Rock. Em Paredes de Coura um outro festival surgia timidamente. Mas era em Vilar de Mouros que se tirava a prova dos nove. Havia música. Havia público. E, claro, havia negócio. Um ano depois, a Herdade da Casa Branca, perto da Zambujeira do Mar, recebeu o primeiro festival a Sul do Tejo. Nascia o Sudoeste, numa edição de estreia que contou com nomes como os Blur, Hedningarna ou Marilyn Manson no cartaz e uma moldura humana que provou, logo, que a aposta era ganha.

Em pouco tempo o Sudoeste cresceu para se afirmar como o mais indispensável dos festivais do Verão português. Os progressivos melhoramentos nas zonas de campismo e relvado (sim, relvado!), a boa vigilância e segurança, a proximidade da praia e de oferta diurna, a criação de uma versátil oferta alimentar, o aparecimento de programas paralelos extramusicais e cartazes capazes de conciliar o gosto mainstream com apetites alternativos somaram razões para querer voltar.

Depois a mitologia, dos cachorros psicológicos aos avestrúgueres, não esquecendo o pó e o mais celebrado dos gritos de "guerra", transformado já em mote de campanha televisiva. Corria uma noite de 1998 e uma tal Elsa perdia-se dos amigos. Até que houve quem começasse a chamá-la. "Ó Elsa!"... O grito rapidamente conheceu eco nas outras tendas da vasta cidade de lona que se estende por detrás do recinto. Foi uma noite inteira de "Ó Elsas", grito que se repetiu nos dias seguintes. Um grito denunciador de uma ideia de integração na multidão que acabou cantado por todos. Sobretudo os que nem imaginavam como era a Elsa. No ano seguinte a Elsa já estava esquecida, mas a organização recuperou-a com olho para o negócio e chamou à loja de merchandising do festival a Loja da Elsa.

Em oito anos de Sudoeste já por lá passaram os mais diversos nomes do panorama pop e afins (pontualmente com incursões pela world music). De Beck aos Franz Ferdinand, de Sérgio Godinho a Jorge Palma, dos Portishead a PJ Harvey, dos The Gift aos Da Weasel, dos Belle And Sebastian aos Mercury Rev, dos Love (sem Arthur Lee, que perdeu o avião) aos Kraftwerk, dos Clã aos Silence 4, dos Air aos Divine Comedy, dos Massive Atack aos Jamiroquai. Todos os géneros representados. Todos geralmente satisfeitos. Mesmo que este ano falte este ou naquele falte aqueloutro... E quando a música não vai a gosto, faz-se pausa para descansar e retoma-se a festa na banda seguinte.

O sucesso do festival do Sudoeste alimentou a explosão festivaleira de que hoje o País é montra (e que começa a dar sinais de exaustão que se manifesta em plateias menos cheias). Assim como Paredes de Coura se quer reafirmar este ano como o grande festival para gostos melómanos, e Vilar de Mouros procura manter viva a ideia de cruzar gerações, o Sudoeste volta a mostrar-se este ano como o mais capaz de seduzir e agregar mais gentes e gostos. Com infra-estruturas sólidas, bom programa musical, um novo modelo de concertos e, uma vez mais, com tudo para fazer a festa. Mais a Elsa!

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG