Comício de Almada marca o fim de um mito no Prec

Figura incontornável do Verão Quente de 1975 e do braço de ferro que já se instalara no seio do MFA, entre a esquerda militar (gonçalvistas), moderados (Grupo dos Nove) e revolucionários (agrupados em torno do Copcon), Otelo Saraiva de Carvalho ainda tentou evitar que Vasco Gonçalves participasse no comício de Almada, marcado para dia 18 de Agosto, temendo que isso só contribuísse para radicalizar ainda mais a situação. Mas o primeiro- -ministro não lhe deu ouvidos.

"Fui deliberadamente", confessará, alguns anos depois, a Maria Manuela Cruzeiro [Um General na Revolução]. "Até porque havia a ideia de fazer uma série de comícios onde eu explicasse às pessoas o que se estava a passar. A minha preocupação era o esclarecimento e esse comício foi (...) organizado pela 5.ª Divisão [Estado-Maior General das Forças Armadas], em colaboração com sindicatos e comissões de trabalhadores."

Objecto de todas as pressões e alvo de todas as contestações, Vasco Gonçalves estava, mais do que nunca, disposto a resistir. Uma determinação que assumia por sua conta e risco. Até porque o primeiro-ministro não se esquecera, por certo, do aviso que o Presidente da República lhe fizera dez dias antes, quando declarara, em plena posse do V Governo Provisório, que o Executivo só duraria o tempo suficiente para se encontrar uma solução mais estável para o País.

Vasco Gonçalves sabia, pois, que corria contra o tempo. Especialmente no plano político-partidário, uma vez que o Documento dos Nove já tinha ajudado a clarificar a situação no MFA, deixando a esquerda militar ainda mais isolada. O que iria obrigá-la, como se pode observar depois, a reformular a sua estratégia e até a sua estrutura no terreno, reagindo à perda dos apoios que lhe tinham sido proporcionados pelo gabinete do primeiro-ministro. Especialmente depois do 11 de Março, quando a revolução portuguesa se radicalizara.

Não espanta, por isso, o tom crítico - porventura excessivamente crítico - que se ouviu naquele dia, no pavilhão da Escola D. António da Costa, onde Vasco Gonçalves se mostrou visivelmente cansado, sem que isso o impedisse, no entanto, de apontar o dedo aos adversários. "É de lamentar que homens, com quem a revolução deveria contar, que tinham o dever de se encontrar lado a lado com outros revolucionários (...), não hesitem em estabelecer alianças de facto com os indignos que ontem combateram, só com o propósito de quererem impedir que as classes trabalhadoras tomem o seu destino em mãos - esquecendo até que, em última análise, e por mais arrependimentos que derem, não se esquivarão (...) à sanha dos inimigos do Povo Português."

Um ataque desenfreado ao Grupo dos Nove que animou a assistência, mesmo que a maioria das pessoas presentes em Almada ignorassem, nessa altura, que isso colocava Vasco Gonçalves em colisão com a nova estratégia que Álvaro Cunhal impusera ao PCP, no Comité Central de Alhandra. E que passava, justamente, pela recuperação do diálogo perdido com os sectores moderados do MFA, liderados por Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, entre outros.

Autismo. Nada que preocupasse ou que condicionasse o primeiro-ministro, que ensaiava, assim, uma fuga para a frente, fingindo ignorar todas as advertências de Cunhal, à semelhança do que já fizera com a enorme demonstração de força do PS e de Mário Soares na Fonte Luminosa, em Lisboa, ou até com a nova correlação de forças que o Documento dos Nove impulsionara no interior do MFA.

É isso que explica o tom inflamado do primeiro-ministro em Almada e que seria transmitido para todo o País, graças aos directos das rádios e da televisão.

E é isso que ajuda também a perceber a enorme profissão de fé que Vasco Gonçalves fez no processo revolucionário em curso (Prec), como se aquela fosse a última oportunidade. "Chegou a hora da verdade para a Revolução portuguesa. (...) Agora que o fascismo, mercê das nossas hesitações, ambiguidades e querelas subalternas - está a levantar a cabeça (...), todos os antifascistas, todos os patriotas e todos os democratas (...) devem unir-se numa frente de defesa das liberdades democráticas, inabalável e indestrutível."

Fim de ciclo. Um discurso frentista muito influenciado pela aproximação do primeiro-ministro à extrema-esquerda e, em especial, ao PRP/BR (de Carlos Antunes e Isabel do Carmo), e que justificaria, dias depois, a criação da Frente de Unidade Revolucionária (FUR), para onde convergiram MDP/CDE, LUAR, MES, FSP e LCI e que viria a contar com o apoio do PCP - durante pouco mais de 48 horas.

Mas quem não se deixasse contagiar pelo ambiente de Almada - ou não se impressionasse com muita facilidade - sabia que o papel de Vasco Gonçalves começava a estar esgotado, e que ele acabaria por sair. Como saiu.

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