Botelho e a comédia fatal como o destino

Um estudo recente confirmou uma opinião que todos nós já ouvimos ou conhecemos os portugueses acham o nosso cinema macambúzio. No entanto, creio que esse não é de modo nenhum o grande defeito do cinema português. Vejam o caso de João Botelho: enquanto fez filmes macambúzios foi um cineasta muitíssimo interessante; mas desde que aligeirou e introduziu elementos cómicos, o resultado tem sido muito mau. Assim aconteceu com o desigual Tráfico e com o atroz A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América. Assim acontece também com O Fatalista. João Botelho começou a fazer comédias sem ter nenhuma vocação cómica. O caso de O Fatalista é significativo o texto é bom, os actores são bons, o realizador filma bem, e mesmo assim o filme fracassa. E fracassa apenas porque o tom não nos convence.

O Fatalista adapta o clássico de Diderot Jacques, le Fataliste. Tiago (Rogério Samora) e o patrão (André Gomes) andam perpetuamente na estrada, e nas suas viagens cruzam-se com personagens muito diversas, contam e ouvem histórias sempre interrompidas e retomadas, acumulam considerações filosóficas e recordações sexuais. É um road movie tagarela, vagamente obsceno e vagamente perverso, que aproveita a clássica dialéctica patusca entre senhor e servo, com grande cópia de ironias, crueldades e trocas de máscara. Sempre que Samora está presente, aliás, o filme tem ritmo e alguma graça, com constantes divagações, provérbios e um hedonismo meio cínico. Mas sempre que Botelho encena os saltos narrativos do romance, O Fatalista é uma desgraça.

Essas peripécias acontecem em bares de alterne e palacetes fidalgos, com diálogos e monólogos artificiais imbuídos de um humor que se pretende socialmente crítico mas que é apenas revisteiro (o miscasting de Rita Blanco é especialmente penoso). O único cineasta nacional com talento congénito para o escárnio era João César Monteiro. Botelho, pelo contrário, parece que contraria mais uma vez a sua natureza, que consiste em dirigir bons filmes macambúzios (como Um Adeus Português).

Se O Fatalista decorresse directamente do genial texto de Diderot, seria uma comédia ágil e sofisticada. Botelho edita bem o texto, é elegante e despojado, brinca com as excentricidades narrativas (como no epílogo). Mas esse aspecto de adaptação literária, que tem como âncoras Samora e a voz off de Rui Morrison, acaba por se desvanecer no meio da sátira social apressada e desajeitada e de uma ânsia canhestra de espelhar situações actuais. O que é corrosivo no romance é aqui estagnado ou caricatural ou tem mão de chumbo.

Tiago, o fatalista, repete várias vezes que as coisas acontecem como acontecem porque " estava escrito lá em cima". Depois de várias comédias nada cómicas, parece que estava escrito que João Botelho não tem dotes satíricos. Venham os filmes macambúzios.

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