"As crianças vão para as filas do supermercado à noite para venderem o lugar de manhã"

Roberto Rodrigues, dirigente estudantil, encarna a esperança de um país. E quer ajudar a transformar o caos onde vive. Acredita no futuro da Venezuela.

Para chegar à casa dos Rodrigues tivemos de passar por dois controlos de segurança. No condomínio fechado, um cão pequeno, relvado, jardim, uma horta e uma vista soberba sobre Caracas compõem o cenário. O pai é natural dos Canhas, a mãe nascida na Venezuela é filha de madeirenses, da Ponta do Sol. O Roberto estuda Relações Industriais e também Sociologia na Universidade Católica Andrés Bello, um estabelecimento privado em Caracas.

Dois cursos em simultâneo e ainda lhe sobra tempo para ser representante dos alunos no importante conselho para as áreas sociais da universidade. Ganhou as últimas eleições. "Arrasou", como lhe disse um dos muitos estudantes que se cruzaram connosco durante a visita guiada que fez à universidade. Aliás, foi constantemente interrompido com efusivos abraços e congratulações dos pares. Este dirigente estudantil não esconde uma ambição: contribuir politicamente para uma mudança política na Venezuela. Quer, para já, participar na vida universitária.

Uma universidade em que a arquitetura tem um simbolismo importante. As salas têm janelas para os bairros que estão à volta e as fachadas foram inspiradas numa colmeia. "Não pode ser uma universidade fechada sobre si mesma." Roberto esteve muito ativo nos protestos, em Caracas, onde foi atingido por três balas de borracha. Deixaram marcas no corpo e no espírito. É também voluntário num bairro de lata. Está ainda envolvido, com um grupo de jesuítas e a Organização Internacional do Trabalho numa campanha contra o trabalho infantil. Uma realidade que todos negam. Mas, como explica "admitem que as crianças vão, durante a noite, para a fila do supermercado guardar um lugar que pode, pela manhã, ser vendido, tal como os produtos que compram a preços controlados. É uma forma de arranjar algum dinheiro. Não deixa de ser um trabalho".

Roberto herdou a capacidade de trabalho e a solidariedade dos pais. "Numa versão melhorada", sublinha a mãe. Questionado sobre se acredita no futuro da Venezuela, Roberto responde sem hesitar: "Acredito no futuro deste país porque acredito nas pessoas." Não quer emigrar. Nem todos pensam assim. Na universidade onde estuda, em dois anos, saíram mais de dois mil alunos. Faltam professores que estão a ser substituídos por alunos que vão acabando o curso e ganham assim algum currículo. Apenas. Porque o salário de professor é miserável.

Roberto reconhece que é difícil ficar na Venezuela. "Tem custos, a começar pela falta de segurança, para encontrar um medicamento pode ser preciso ir a 15 farmácias, não se tem acesso a determinados bens como um telemóvel ou um carro. Não há qualidade de vida, mas quando vês que a tua presença pode ser útil aos outros, isso compensa os custos." Quanto aos protestos que provocou várias dezenas, senão centenas, de mortos e feridos, especialmente jovens, este dirigente estudantil diz que "não deu os resultados esperados. Arriscámos muito, a própria vida. E quando pões a vida em risco só pode ser por algo que vale a pena. Vemos a política e a forma de lutar pelos nossos direitos de forma diferente". Não está arrependido, pois, conforme diz "aprendemos muito. Agora são necessárias outras formas de luta mais inteligentes. O que passa também pela intervenção social, próxima das comunidades".

O pai é empresário na área da restauração e da panificação. Aos 14 anos, José deixou na Madeira mais de duas centenas de ovelhas nas serras. Andava descalço. Ainda adolescente, começou por lavar pratos. Mas cedo percebeu que queria ter um negócio e carro próprios. Fazia dois turnos seguidos. Muito esforço para conseguir o património que tem. Não abandona o que tanto custou. Nos tempos livres vai à horta onde planta feijão, milho, couves, cenoura, etc.. "Pelo prazer de colher." E, como que a reforçar que também acredita no futuro, diz que tem duas figueiras para plantar. A esposa fala dos maracujás que partilha com os bandos coloridos de araras selvagens. "Dá para todos", diz. Lucy, como toda a gente a trata, faz parte da Associação de Beneficência de Damas Portuguesas. Há vários anos. Continua a ser a mais jovem da direção. "O pouco que se faz pode significar muito para os que precisam."

Se há muita gente a sair da Venezuela à procura de melhores dias, há quem, até à última, permaneça e tente não baixar os braços para que a situação melhore. De várias formas. A família Rodrigues com "s" é disso exemplo.

Texto originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira

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