Opinião

A crise e os populismos violentos

A complexidade, de racionalização extremamente difícil, a que a desordem do Brexit conduziu a questão de saber se a Europa acaba no canal, e se, na sequência do possível não acordo, o Reino Unido terá de enfrentar algumas consequências resultantes de não ser um Estado nacional, tudo se reflete na imprevisibilidade dos resultados das passadas eleições europeias, quer o Reino Unido participasse sem significado nelas quer estivesse já ausente.

Adriano Moreira

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

Paula Sá

Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, em Salvador da Bahia. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.

Filipe Gil

Onde anda o livro?

Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

Miguel Marujo

Esta música não soa bem com aquela pessoa

- Isso não soa bem. Podes escolher outra? - Escolher outra quê? Outra música? - Sim. Escolhe outra. - Mas para que é que eu vou escolher outra? É essa. A minha canção preferida do George Michael é o Faith. Qual é a questão? - Esta não pode ser. Não soa bem. Quer dizer. Não te soa bem. Não. Não soa bem para ti. Não é uma boa canção para ti, pronto. Não te assenta bem. - Mas não é uma boa canção para mim porquê? É a minha canção preferida dele. Qual é o teu problema? Mas agora mandas nas canções de que eu gosto? - Ele tem tantas. Escolhe outra. Olha aquela com as modelos boazonas, o Freedom! Isso é uma grande canção. Ou o Jesus to a Child. Ou o Careless Whisper. - Mas tu estás parvo? Qual é o problema desta canção? A escolha é minha, não é tua. Perguntaste-me qual é a minha canção preferida do George Michael. E eu respondo: é o Faith. Se não gostas dela, paciência. - Não, não, eu gosto muito. É uma música do caraças. - Então??!!!! Hello??!!! O que é que se passa? Porque é que não posso escolher esta? - É que essa é a canção preferida da Cláudia. - Qual Cláudia? A tua Cláudia? - Ela não é a minha Cláudia. É a minha ex-Cláudia. Quer dizer, é a ex-minha Cláudia. Já não somos casados. - Eu sei que não são casados. És casado comigo, lembras-te? Casámos ao som do Barry White. E abrimos a pista do copo-de-água com o Never Can Tell do Chuck Berry. Lembras-te disso ou essas canções também te fazem lembrar a tua ex-mulher? Diz-me agora, não me digas só quando eu morrer ou no dia em que nos divorciarmos. - Nós não nos vamos divorciar. - Se houver mais alguma música de que eu goste e que tu digas que te faz lembrar a tua ex-mulher, garanto-te que nos divorciamos. - Não é isso. Não é que me faça lembrar a Cláudia. Mas é a canção do George Michael de que ela mais gosta. E a ela assenta bem. Ou melhor, ela escolheu primeiro. E na minha cabeça... - A tua cabeça daqui a bocado leva com um CD porque me está a irritar? - As pessoas têm canções próprias. Cada pessoa tem a sua. Ou várias. E aquela é dela e associo-a a ela. Desculpa. Não posso associar a ti também. - Isso é um problema teu. E é uma estupidez. - Sabes qual é a minha canção preferida? - A Canção de Embalar, do Zeca Afonso. - Pronto. Agora imagina que essa era a canção preferida de um ex-namorado teu. Ou do teu ex-marido. - E é. É a canção de embalar preferida do João. Ele cantava-a muitas vezes para adormecer o miúdo. - Qual miúdo? O Pedro? - Sim, o Pedro. O meu filho. O teu enteado. - Mas eu punha essa canção para adormecer a Matilde. - Sim. E eu adorava isso. Os meus filhos adormeciam os dois ao som do Zeca. É bonito. - Mas os teus dois maridos preferiam esta canção? - Eu não tenho dois maridos. Tive um, agora tenho outro. E sim, gostavam os dois da canção. E adormeceram os filhos ao som dessa canção. De que gostam os dois. E então? - Então?! Como então?! Não pode ser. Isso é errado. - Tu estás um melómano sentimental. Aliás, tu estás é parvo, a verdade é essa. - Não podemos ter a mesma canção. Não posso ter a mesma canção do teu ex-marido. Devias ter-me dito. Cada pessoa tem a sua canção. Não podemos ter a mesma. A Cláudia tem o Faith. A Filipa, com quem namorei na faculdade, tinha o Billy Jean, do Michael Jackson. E a Andreia gostava da Canção do Engate, do Variações. Cada namorada, cada canção. - Esta conversa acaba aqui. - Olha, e o I Want Your Sex, do George Michael? Também é gira. Não queres trocar? Vá lá. - Esta conversa acabou. Se voltas a falar nas canções da Cláudia, da Andreia ou da Filipa, atiro a tua aparelhagem pela janela.

Paulo Farinha

Ver Tudo

Tablets com tinta inteligente para traduzir websites em braille

Kent Cullers é um astrofísico norte-americano que sempre sonhou trabalhar na NASA, e não desistiu até conseguir. Durante vários anos foi um dos responsáveis pelo famoso programa SETI, cujo propósito é encontrar sinais de inteligência extraterrestre no espaço. A sua história, embora pouco comum, torna-se extraordinária graças a um simples detalhe: Cullers é invisual. Na verdade, talvez seja o primeiro astrónomo invisual dos Estados Unidos. Foi inclusive nessa peculiaridade que Robert Zemeckis se inspirou para criar uma das personagens do filme Contacto.A história de Cullers – tal como a de outros invisuais famosos, como Ray Charles ou Jorge Luis Borges – demonstra que, com determinação e uma vocação verdadeira, os invisuais podem desempenhar praticamente qualquer atividade profissional. Com determinação e com a ajuda das ferramentas adequadas, claro. Ferramentas como a que Kristina Tsvetanova criou.As dificuldades que um amigo invisual sentiu para se inscrever num curso online, que para a maioria das pessoas é um processo simples, incentivaram a engenheira búlgara a procurar uma solução que permitisse aos invisuais superarem a barreira digital. “Só 1% da informação total está disponível em braille. Essa é a única possibilidade que as crianças e os adultos têm de se alfabetizarem, de aprenderem a ler e a escrever”, explica Tsvetanova. “Isso é crucial para depois poderem arranjar emprego”.Ao falarmos de informação na atualidade, falamos do mundo digital e da Internet. Um mundo que é menos acessível para 285 milhões de pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência visual. Foi dessa injustiça – que emocionou Tsvetanova – e da vontade de ajudar que nasceu o Blitab, o primeiro tablet do mercado capaz de, em tempo real, converter em braille textos e gráficos provenientes de páginas na internet ou de equipamentos de armazenamento digital, como drives USB. O sistema criado por Tsvetanova e pelos seus parceiros consiste num líquido inteligente que forma pequenas bolhas, para que se possa ler.O Blitab permitirá aos invisuais estudarem, informarem-se, jogarem e, sobretudo, sentirem-se integrados numa sociedade em que ninguém deve ser excluído. Empresas, organizações sem fins lucrativos, governos e universidade de todo o mundo já manifestaram interesse na sua ideia, o que augura uma projeção mais interessante. Tsevetanova, eleita um dos 35 inovadores com menos de 35 anos pelo MIT, considera que os equipamentos que recorrem ao áudio não são concorrentes do Blitab porque “o braille nunca desaparecerá, tal como a palavra escrita”. Uma ideia bonita, que nos enche de esperança.Entrevista e edição: Noelia Núñez | Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

A invenção de uma menina de 12 anos que pode salvar milhares de vidas

"Se tens uma ideia, não desistas. Se falhares, tenta novamente".Parece uma frase retirada de uma caneca da Mr. Wonderful ou de um Tweet para agradar a um grupo de empreendedores. Mas, se foram pronunciadas por alguém como Gitanjali Rao, convém que prestemos atenção, porque a determinação e o talento desta menina de 12 anos permitiram-lhe ser nomeada melhor jovem cientista dos Estados Unidos, no ano passado, e, mais importante do que isso, levaram-na a projetar um dispositivo que pode ajudar a salvar várias vidas, no futuro.Gitanjali teve a ideia de projetar a Tethys, um detetor de chumbo que lhe garantiu o reconhecimento, quando viu, nas notícias, o que tinha acontecido em Flint, no Michigan.Esta cidade com cerca de 100 mil habitantes ficou famosa nos Estados Unidos quando se descobriu que, devido a alterações no abastecimento, durante alguns anos os habitantes tinham consumido água contaminada com chumbo. Mais escandaloso foi o facto de as autoridades saberem o que se passava e não o terem denunciado, pondo em perigo as vidas de milhares de pessoas. Quando Gitanjali soube, através da televisão, pensou em “todos os meninos da minha idade que se expunham diariamente ao veneno, só por utilizarem um recurso como a água. O meu primeiro instinto foi perguntar-me como era possível, se toda a gente deveria ter direito a água potável."A sua resposta não poderia ter sido mais clara: projetou a Tethys (assim chamada, em homenagem à deusa grega da água doce e dos rios), um aparelho portátil que utiliza nanotubos de carbono para medir o chumbo. O detetor incorpora um sensor ligado através de bluetooth a uma aplicação móvel que faz uma análise precisa e quase imediata da água.Gitanjali reconhece que a sua paixão pela ciência foi herdada da sua família e sente-se grata por isso.Os seus planos para o futuro são muito claros: gostaria de continuar a ajudar a resolver os problemas das pessoas através da ciência e da tecnologia e sabe que, para isso, tem de pôr em prática seguindo um dos conselhos que dá sempre a toda a gente: "Faças o que fizeres, diverte-te."Entrevista e edição:  Zuberoa Marcos, Pedro García Campos, Cristina LópezTexto: José L. Álvarez Cedena

Insider

Facebook recruta antigo líder do Vine para nova equipa de aplicações

A rede social de Mark Zuckerberg contratou o "patrão" do Vine, Jason Toff, para liderar uma equipa que tem como objetivo a criação de novas experiências e aplicações. Jason Toff deu a notícia através do Twitter, onde explicou que assumirá o cargo de gestor de produto da equipa de NPE (New Product Experimentation). Esta equipa é recente na estrutura do Facebook, já que o anúncio oficial foi feito na semana passada, a 9 de julho. Now that we've moved to CA, I suppose it's a good time to share what I'm up to next! In two weeks, I'll be joining [...]

Estes são os smartphones "campeões" na área da fotografia

"Uma boa câmara fotográfica" passou a ser a resposta de muitos utilizadores quando é feita a questão sobre as características que mais procuram num smartphone - e este ranking atribui pontuações para acompanhar. Sem grandes surpresas, o ranking do site DxOMark, site que atribui classificações a câmaras fotográficas e smartphones e que funciona quase como parâmetro de referência, coloca no topo da lista telefones topo de gama. No entanto, também há espaço para marcas mais acessíveis, como é o caso da OnePlus ou da Honor, que também estão incluídas na lista. Leia também | Bateria do smartphone viciada? Conheça cinco mitos [...]

DN Ócio

Restaurante Boa-Bao abre em Barcelona

Depois de Lisboa e o Porto, o restaurante Boa-Bao acaba de abrir na cidade de Barcelona. O espaço, junto ao Passeig de Grácia no Bairro Eixample, tem dois andares, duas cozinhas e um bar na entrada em 430 metros quadrados. A decoração é similar aos espaços em Portugal - como as andorinhas Bordallo Pinheiro -, é também possível encontrar os mesmos pratos que existem nos restaurantes do Porto ou de Lisboa com cozinha pan-asiática com pratos da Tailândia, Vietname, Laos, Camboja, Malásia, Indonésia, Filipinas, Coreia, Japão e China. Já a carta de bebidas e cocktails é local, elaborada pelos criativos [...]

Andar à pendura com um piloto profissional no Moto GP

Como é assistir ao Moto GP da Catalunha na pele de um VIP, mesmo em frente à reta da meta. E antes, andar à boleia de Randy Mamola a alta velocidade. Texto de Fernando Marques O convite era difícil de recusar, afinal havia a possibilidade de viver uma experiência única: dar uma volta na pista à pendura com um piloto muito especial. Ir a Barcelona, de quando em vez, é contrariar a máxima de que não se deve voltar aonde se foi feliz. Já fui muito feliz na capital da Catalunha e tenciono voltar sempre que possa. Hoje, a realidade [...]The post Andar à pendura com um piloto profissional no Moto GP appeared first on Ócio.

Afinadores de piano: os preparadores de recitais

Sofia Gomes e Pedro Agostinho são afinadores de pianos, instrumento em que se debruçam para escrever uma poesia recitada por outros. Sofia é a única mulher nesta profissão, na qual começou por impulso. Pedro transporta o legado de um antigo e conhecido técnico de pianos. Texto de Catarina Reis No cimo de uma escadaria do Palacete Ramalhão, em Sintra, ouvem-se notas soltas. Um dó duro ou um lá metalizado. Não é música, mas sim um piano a ganhar forma nas mãos de Sofia Gomes, de 30 anos, a única mulher afinadora de pianos do país. Está sentada em frente a [...]

Ljubomir Stanisic tem novo restaurante. E fica nos Açores

Chama-se Líquen e é o novo restaurante do chef Ljubomir Stanisic. Localizado no hotel Furnas Lake Forest Living, na ilha de São Miguel nos Açores. O mote do novo restaurante é "Açores por dentro e por fora", e pretende uma aborgam "local, saudável e sustentável". Texto de Filipe Gil O novo espaço de Stanisic abre sábado, dia 13 de julho, sendo que a equipa do novo restaurante é liderada pelo chef executivo Hugo Alface. De acordo com informação veiculado pelo chef, este inspirou-se na sua ligação à terra aos produtores e produtores para criar o menu do seu novo espaço. [...]

V Digital

Lewis Hamilton leva fundador da Williams a dar uma voltinha

Nascida da vontade férrea de Sir Frank Williams, a equipa Williams atravessa hoje um momento muito delicado em termos de competitividade, não descolando dos derradeiros lugares da grelha, em oposto contraste com os momentos gloriosos de outras épocas. No entanto, isso não impediu a equipa de Grove de celebrar os 50 anos de envolvimento de Frank Williams na modalidade, com um dos pontos altos a ser possibilitado... por um piloto de uma equipa rival, Lewis Hamilton. Foram duas voltinhas em Silverstone sem qualquer vestígio de rivalidade.