Atualidade

Opinião

Maria do Rosário Pedreira

Para inglês ver

Com o Brexit, os franceses, que sempre foram um bocado chauvinistas, começaram logo a esfregar as mãos: se a língua mais falada nas reuniões da UE era a do país que estava de saída, havia ali uma oportunidade para impor o regresso do francês às instituições europeias. Não acredito. Além de já poucos países-membros ensinarem o francês como disciplina obrigatória, o inglês é o idioma da música, do cinema e da televisão que a maioria das pessoas ouve e vê em toda a Europa (e no mundo), tendo-se por isso tornado uma espécie de segunda língua para os que não a têm como primeira (incluindo os franceses, que finalmente se resolveram a aprendê-la). Aqui no burgo, onde os intelectuais foram durante anos influenciados pela cultura francesa, há hoje uma geração mais tecnológica que deixou de saber como se dizem certas coisas na língua materna, mas é absolutamente fluente em inglês. Basta ir ao LinkedIn para ver que todos os nossos conhecidos são agora managers, experts, founders, owners, services providers, coaches, columnists, analysts, strategists, freelancers... e que, quando tentam o português, o cargo fica, ainda assim, a cheirar a tradução, como no caso de um psicoterapeuta que se apresenta como "constelador sistémico" (por momentos, até pensei que se dedicasse à astrologia). Num restaurante, por causa da chapinha de metal no bolso do uniforme, um cliente perguntou ao empregado se nascera no estrangeiro e donde lhe vinha o nome "Trainee". Realmente, por que diabo não escrevem simplesmente "Estagiário" ou "Formando" se estamos em Portugal? É verdade que o crescimento do turismo não ajuda: numa semana, abriu uma dúzia de restaurantes na capital, mas nenhum foi baptizado em português... E há quem ache que o inglês dá um ar cosmopolita, mas depois meta o pé na argola, escrevendo no programa de um congresso que, a meio da manhã, está previsto um redundante "intervalo para coffee break". Exagera-se a tal ponto nas inglesices que uma mãe bem-humorada contava recentemente no Facebook que a filha ficou admiradíssima ao descobrir que "Famalicão" não se escrevia... "Family Cão". Um dia destes, uma jovem leitora escreveu lá para a editora a propor uma parceria: nós oferecíamos-lhe livros, ela dizia bem deles nas redes sociais. E não foi de modas, indicando logo os géneros literários da sua preferência: "YA, NA, Fantasy, Sci-Fi e Thrillers." Olha, filha, deve haver aqui algum engano... Era para a Amazon que querias escrever, não era? Adeus, futuro.Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Maria do Rosário Pedreira

Vida e futuro

"As doenças da coluna são já a segunda principal causa de absentismo laboral"

"As doenças da coluna são já a segunda principal causa de absentismo laboral"

As dores nas costas e as doenças da coluna afetam mais de metade da população portuguesa. Desvalorizá-las pode levar a incapacidade crónica. Más posturas, sedentarismo, os pesos que carregamos todos os dias e agora o pescoço sempre dobrado para olhar para o ecrã do smartphone são os grandes responsáveis. No Dia Mundial da Coluna, falámos com Bruno Santiago, neurocirurgião e coordenador da campanha Olhe Pelas Suas Costas, que procura sensibilizar a população para a relevância atual das doenças da coluna vertebral e para a prevenção das dores nas costas, tentando que cada um adote uma atitude proativa na promoção da [...]

Maria João Caetano

Governantas

"Um homem não se consegue governar sozinho", resignava-se a minha avó, que passou grande parte da vida a cozinhar, a limpar e a arrumar. Dizia governar-se como quem queria dizer arranjar-se ou orientar-se. E dizia-o com uma certa condescendência. Coitados dos homens, como haveriam eles de se governar sem uma mulher em casa a passar-lhes as camisas a ferro e a fazer-lhes o almoço? Um homem tinha de pensar em assuntos importantes, tinha de trabalhar e ganhar dinheiro, tinha lá "as coisas dele" para fazer, precisava de alguém que lhe cuidasse das minudências. Alguém que tratasse do "governo da casa", essa arte cultivada pelas mulheres que (ainda há pouco tempo) liam os livros da Laura Santos, com títulos como Noiva, Esposa, Mãe ou A Mulher na Sala e na Cozinha, livros com capas duras e imagens de mulheres perfeitas, que ensinavam a tratar de bebés e a limpar os estanhos.

Maria João Caetano

João Céu e Silva

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

João Céu e Silva

Miguel Marujo

Blasfemos, graças a deus

Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Miguel Marujo

Filomena Naves

A salto

Um dia desapareceu. Não fez avisos, não deixou carta, nenhuma explicação. Simplesmente deixou de aparecer na loja de tecidos do velho tio que, mais por piedade, o acolhera. António atendia às vezes ao balcão e até encantava as senhoras da boa sociedade provinciana, mas quando a conversa passava para os tecidos a coisa descarrilava. António não distinguia um tweed de um algodão, uma seda de um linho fino, ou de uma chita barata. E o pior, invetivava o tio, irrepreensível no seu fato de bom corte, era que António não queria aprender. O jovem olhava-o com um olhar sonhador, dizia "sim, meu tio", e calava-se.

Filomena Naves

O estúdio de efeitos especiais que criou a personagem Benjamin Button

O estúdio de efeitos especiais que criou a personagem Benjamin Button

Muitos dos filmes que melhores (e também piores) momentos proporcionaram aos espectadores têm como elemento comum a utilização dos efeitos visuais ou efeitos especiais para criar a ilusão de mundos ou criaturas imaginárias. Por vezes belos, por vezes terríveis, mas sempre – mesmo com recurso a tecnologias muito rudimentares – assombrosos. Já num ano tão longínquo como 1933, Merian C. Cooper conseguiu aterrorizar meio mundo com o seu King Kong, o gigantesco símio que se tornou, desde então, um ícone da cultura popular. Diz-se mesmo que, numa primeira edição do filme, o público desmaiava ou saía espavorido da sala perante algumas cenas que foram posteriormente eliminadas. Na verdade, a lenda soa melhor do que a realidade, dado que, ao que parece, as míticas cenas foram cortadas por Cooper por um motivo muito mais prosaico: abrandavam o ritmo da história. Outros pioneiros, como George Pal ou Ray Harryhausen, conseguiram criar autênticas fantasias visuais com marionetas, desenhos, miniaturas, látex, maquetas e explosões. Hoje em dia, todos estes truques foram substituídos por software muito sofisticado e por potência de computação, mas há algo que permanece: a imaginação para fazer parecer real algo que não existe. Darren Hendler, diretor do Digital Human Group na Digital Domain, dedica-se há 25 anos aos efeitos especiais no cinema, tendo participado em alguns dos maiores sucessos de bilheteira das últimas décadas. Pelas suas mãos – e pelos seus computadores – passaram monstros e personagens que fazem parte da nossa memória cinematográfica. Precisamente para se manter na vanguarda da indústria, o seu trabalho teve de evoluir: "Nos dois últimos anos, centrei-me mais na parte tecnológica do cinema, no que é possível fazer, e, sobretudo, na chegada da aprendizagem automática e no modo como podemos transformar o que fazemos e levá-lo mais longe."As proezas tecnológicas da Digital Domain incluem ter tornado credível um Brad Pitt idoso na notável fantasia de David Fincher "O Estanho Caso de Benjamin Button" ou ter permitido que Josh Brolin desse alma a Thanos, um personagem incontornável da saga Vingadores, graças aos sofisticados sistemas de captura de movimento com que registaram todos os gestos do ator. Porém, uma das mais comentadas contribuições do estúdio para a história recente do cinema foi, sem dúvida, ter "ressuscitado" uma Carrie Fisher jovem para fazer uma aparição estelar em "Rogue One: Uma História de Star Wars". Por trás do rosto de Fisher, escondia-se a atriz norueguesa Ingvild Deila, que garante ter enfrentado o desafio de interpretação de uma forma "muito mais técnica" do que o habitual, concentrando-se "nas coisas que Carrie fazia com os olhos ou no modo como mexia a boca."A possibilidade de voltar a contar com rostos icónicos da história do cinema graças à tecnologia, apesar de os atores ou atrizes já terem falecido, abriu um debate na indústria que, pelos vistos, não terá fim tão cedo. Entretanto, Darren Hendler acredita que as possibilidades dos efeitos visuais continuarão a crescer: "Vai demorar algum tempo até alcançarmos os 5% que faltam para que alguém possa entrar em cena e interpretar em direto uma pessoa diferente." Quando esse limite for superado, todos teremos de começar a preparar-nos para a invasão de ressuscitados que nos cairá em cima.Entrevista e edição: Zuberoa Marcos, Noelia Núñez, Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

A programadora prodígio de 11 anos que já tem a sua própria empresa

A programadora prodígio de 11 anos que já tem a sua própria empresa

O verão é a época alta das contratações futebolísticas. À falta de outras notícias relevantes, os meios de comunicação social dedicam muito tempo aos vaivéns do mercado de jogadores. Nomes importantes e números milionários entretêm os adeptos de futebol até ao início do campeonato. Mas o tema das contratações não é exclusivo do desporto. No mundo empresarial em geral, e no das grandes empresas tecnológicas em particular, a busca de talento jovem é uma constante. Descobrir os mais novos com aptidões especiais e convidá-los a entrar para as suas empresas é um investimento de futuro que pode marcar a diferença em relação aos concorrentes dentro de alguns anos. Nesta corrida, Samaira Mehta, uma pequena programadora de onze anos, é uma das estrelas mais cobiçadas. Não é em vão que os seus passos já são seguidos de perto por dois gigantes como a Google e a Microsoft.Os feitos que levaram Samaira a estar em todas as listas de futuras figuras relevantes na tecnologia são impressionantes devido à sua tenra idade. É a fundadora e diretora executiva da CoderBunnyz, uma empresa que se dedica a ensinar programação através do jogo, já deu mais de 50 aulas a cerca de 2000 raparigas e rapazes, os seus jogos são utilizados em mais de cem escolas dos Estados Unidos e foi a vencedora do prémio Youth Entrepreneur. A sua história até chamou a atenção de Michelle Obama, que lhe enviou uma carta em 2016 para a felicitar e incentivar a continuar a progredir.Se, com o seu primeiro jogo de tabuleiro, o objetivo de Samaira era conseguir que as crianças aprendessem a escrever código, com o segundo (chamado CoderMindz) quer ensinar-lhes noções de inteligência artificial. E nada parece deter esta pequena programadora que se afeiçoou aos computadores e às linguagens informáticas aos seis anos, graças ao seu pai Rakesh Mehta, engenheiro na Intel. Samaira continua a inventar e a espremer tudo o que acontece ao seu redor para o transformar numa aprendizagem contínua que lhe permita avançar. O seu objetivo é ajudar o mundo através da tecnologia e já demonstrou que não é das que se rendem, tal como expressa na sua frase preferida: "Não te preocupes com o fracasso. Preocupa-te com as oportunidades que perdes por não tentares."Entrevista e edição: Zuberoa Marcos, Azahara Mígel, Pedro García Campos, Cris López Texto: José L. Álvarez Cedena