Professor Nuno, quero dizer-lhe: enganou-se

Sem sombra de dúvida e a grande distância, o meu professor de Educação Física do 8.º e do 9.º anos foi o pior do meu percurso escolar.

Eu era uma gordinha desajeitada, sobre isso não há especulação possível, mas o professor Nuno era abrutalhado no trato, gostava de humilhar com audiência, dizia coisas simpáticas como "quando tiveres 30 anos não te mexes", criava zero empatia e não sabia ouvir. Sobre ele, circulavam pelo menos três rumores nunca confirmados mas gravíssimos aos olhos de miúdos de 13 anos: a) tinha um pai muito severo; b) tinha sido expulso do Colégio Militar e c) tinha querido ser militar e não tinha conseguido. E era, essencialmente, uma pessoa injusta.

Um dia mandou para a rua todas as raparigas da turma a pretexto de terem parado durante a corrida de 15 minutos que tinha exigido. Não vamos agora debater se a "punição" é justa para o "crime". A verdade que é preciso repor é esta: se há pessoa que não parou fui eu. A duras penas e lentamente, mas cumprindo. O castigo foi, por isso, duplamente injusto. Mas ninguém quis saber. Nem ele. Nem eu. Até ter começado a correr e ter decidido que não ia desistir.

Correr exige pernas e um coração saudável, mas também um cérebro treinado para aguentar, superar aqueles primeiros cinco minutos, acreditar. Os atletas profissionais batem-se contra a concorrência e focam-se na respiração. Já os corredores amadores precisam de distrações, lutam a todo o momento contra eles próprios, a preguiça, os seus fracassos e fantasmas. Professores Nunos que, de tanto dizerem "não és capaz", nos empurram para a frente.

No rescaldo de qualquer meia maratona penso que ainda tenho de agradecer ao professor Nuno e pergunto-me: se fosse mais compreensivo, eu saberia que era capaz? Se não exigirem mais de nós, como sabemos que podemos chegar mais longe? E, afinal, foi um bom ou um mau professor?

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