O último viking foi o primeiro homem a cruzar ambos os polos

O fascínio dos noruegueses pelo mundo do gelo levou-os a ter na viragem do século XIX para o XX uma série de brilhantes exploradores do Ártico e da Antártida, com o mais mítico de todos a ser Roald Amundsen. A comparação com a bravura dos antigos vikings, muitos deles oriundos da moderna Noruega, foi inevitável e o descobridor do Polo Sul ganhou mesmo o epíteto de O Último Viking. (Artigo publicado originariamente a 19 de junho de 2019)

"Como me tornei um explorador? Isso simplesmente não aconteceu por acaso, pois toda a minha carreira tem sido um progresso constante em direção a um objetivo definido desde que eu tinha 15 anos. Tudo o que realizei na exploração tem sido o resultado do planeamento de toda uma vida, de uma preparação meticulosa e do tipo mais difícil de trabalho consciencioso", escreveu Roald Amundsen na autobiografia A Minha Vida como Um Explorador, publicada na versão em inglês alguns meses antes da sua morte, no Ártico, em junho de 1928, com 55 anos, numa ação de resgate a um outro explorador da vastidão gelada.

"A tragédia do Polo Norte. Ainda não há notícias de Amundsen e dos seus companheiros", podia ler-se na primeira página do Diário de Notícias de 27 de junho de 1928. Jornais do mundo inteiro tentavam saber o destino do conquistador do Polo Sul, referindo-se sempre à façanha de 1911. Mas o Polo Norte merece também estar no currículo do norueguês desaparecido: mesmo que um dia a reivindicação do americano Robert Peary datada de 1909 venha a ser 100% comprovada, Amundsen sobrevoou em 1925 num dirigível o extremo setentrional do planeta, o que fez dele o primeiro homem a cruzar os dois polos. Extraordinário.

Nascido em Borge, perto de Cristiânia (atual Oslo), em julho de 1872, Amundsen sentiu desde pequeno o apelo da natureza, que para um norueguês é essa mistura de mar e de montanhas que dá forma alongada ao país, tudo num ambiente de gelo, sobretudo à medida que o território se aproxima do Ártico. Estava na época a Noruega numa união com a Suécia, sendo governada a partir de Estocolmo pela dinastia dos Bernadotte, descendentes de um general de Napoleão convidado a reinar naquela parte da Escandinávia. Mas a identidade norueguesa vinha do tempo dos vikings e não faltavam figuras de destaque entre o pequeno povo, ainda hoje de pouco mais de cinco milhões. Para um jovem como Amundsen, a inspiração viria muito do compatriota Fridtjof Nansen, que em 1888 foi o primeiro a atravessar a calota de gelo da Gronelândia, de costa a costa. Antes, já os relatos da (malfadada) travessia da rota do noroeste pelo britânico John Franklin tinham entusiasmado o miúdo de Borge.

Na tal autobiografia, Amundsen falava de como se exercitou desde muito cedo para ganhar resistência, jogando até futebol apesar de não gostar. De todos os desportos, o esqui era aquele em que se sentia mais à vontade, dando-lhe um físico que, contava o próprio, surpreendeu o médico que o inspecionou para o serviço militar. Espantado com os músculos do recruta, a ponto de chamar vários oficiais para observar, não ligou muito aos olhos de Amundsen, que foi dado como apto, o que lhe agradou pois o tempo de tropa serviu para prosseguir o seu treino físico.

A fortuna familiar, feita como armadores, facilitou os projetos de Amundsen, com o único compromisso a ser o curso de Medicina que os pais tanto queriam que fizesse. Do contacto permanente com o gelo norueguês passou um dia à descoberta do maciço branco da Antártida, viajando com uma expedição belga em 1897, a qual, depois de o navio Belgica ficar preso no gelo, teve de passar o inverno nos mares austrais, fornecendo algumas dicas de sobrevivência ao norueguês, que lhe seriam mais tarde úteis.

A fama de Amundsen chegou com a sua travessia bem-sucedida da rota do noroeste, entre 1903 e 1906. À medida que avançam, os exploradores noruegueses a bordo do Gjoa vão aprendendo com os esquimós, ou inuit, como lidar com o frio extremo. Descobrem, por exemplo, que as peles de animais dão agasalho muito mais eficaz do que as roupas de lã. Não ensopam com a chuva.

Já cumprida a missão, Amundsen descobriu que a Noruega se tornara em 1905 um país independente, numa separação pacífica da Suécia. Escreveu então ao novo rei eleito, Haakon VII, a destacar o feito que tanto honrava a nação e saudando o monarca como seu fiel súbdito. Mais tarde, na Antártida, batizará com o nome Haakon VII uma vasta região, sinal de patriotismo mas também de reconhecimento da popularidade de um rei que já bem mais velho se distinguirá pela coragem em resistir aos invasores nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

Os olhos de Amundsen estavam no Polo Norte, afinal o grande desafio quase ali às portas de casa. Tinha adquirido para as suas incursões no mundo branco o Fram, o navio de Nansen, de madeiras robustas e construído no estaleiro de Larvik para suportar as ofensivas do gelo marítimo. Mas a notícia de que Peary já andava no Polo Norte fê-lo refazer secretamente os planos e, em vez de rumar para o Ártico, apontou a proa ao Sul. Só na escala na Madeira o novo objetivo foi revelado à tripulação. Ao mesmo tempo, o britânico Robert F. Scott estava também a caminho do Polo Sul, pelo que um duelo de exploradores rapidamente emergiu, apesar de toda a admiração mútua e de um cavalheirismo excecional.

O norueguês venceu o duelo, ao atingir o Polo Sul a 14 de dezembro de 1911 (e contou tudo no livro O Polo Sul). Ficou famoso o destino trágico de Scott, que não só perdeu a corrida como morreu no regresso do Polo Sul. O grupo de Amundsen, esse, voltara são e salvo ao Fram, graças em grande parte à experiência acumulada no norte. Mantimentos deixados ao longo do caminho, e colocados em várias fases, facilitaram o regresso. Também as peles de animais mostraram ser melhores do que as roupas de lá da expedição britânica. E os cães esquimós trazidos da Gronelândia muito mais fiáveis do que os póneis da Sibéria escolhidos por Scott. De regresso à Europa, e admirado mundo fora, o norueguês decidiu aprender a pilotar aviões a fim de prosseguir as suas explorações agora pelo ar.

Em 1925, quase atingia assim o Polo Norte. Finalmente, em 1926, no dirigível Norge, do italiano Umberto Nobile, sobrevoou o Polo Norte. Foi a primeira vez de forma comprovada, e a bordo do dirigível estava também Oscar Wisting, um dos cinco homens que em 1911 chegaram ao Polo Sul. Assim, no mínimo, foram dois noruegueses os primeiros a cruzar ambos os extremos do planeta.

Sobre esta genialidade norueguesa na exploração dos territórios mais gelados do planeta, um pouco como séculos antes os navegadores fizeram noutras latitudes, comenta o embaixador norueguês em Lisboa, Anders Erdal: "Noruega e Portugal são nações de descobridores. Os noruegueses fizeram grande parte das suas expedições às áreas dos polos, onde atualmente as alterações climáticas são um grande desafio, com um sério impacto climático, dado que o gelo está a derreter rapidamente. Temos de unir esforços de forma a impedir este degelo para evitar graves consequências negativas em todo o mundo. Isto é absolutamente necessário para manter as sociedades sustentáveis, onde o crescimento e o desenvolvimento possam ocorrer dentro dos limites de tolerância da natureza."

A Noruega está hoje entre os países líderes nas preocupações ambientais e é natural que olhe com assombro para o degelo dos polos. Amundsen não acreditaria no que está a acontecer, ele que ganhou tal paixão pelo mundo gelado que chegou a ter uma companheira esquimó, e a arriscar tanto que sofreu ataques de ursos-polares e desapareceu ao comando de um hidroavião junto da ilha do Urso. Chamaram-lhe de O Último Viking, uma alusão à esses guerreiros dos mares que, como Leif Erikson, se aventuraram tão longe que terão sido pioneiros a chegar à América do Norte.

Mas não se pense que os vikings só navegavam em mares frios, pois há relatos de terem chegado à Península Ibérica e até de terem entrado no Mediterrâneo. Isso explicará porque depois de Amundsen, o mais célebre dos exploradores noruegueses, foi Thor Heyerdahl, que em 1947, a bordo do Kon-Tiki, fez a travessia entre a América do Sul e a Polinésia para tentar provar a hipótese de povoamento dessas ilhas do Pacífico por indígenas do Peru alguns séculos antes da chegada dos colonizadores espanhóis.

Hoje o Kon-Tiki está num museu em Oslo, tal como o Gjoa, o Fram e os restos de alguns barcos vikings.

(Artigo publicado originariamente a 19 de junho de 2019)

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