A vez das mulheres brasileiras

As mulheres são tradicionalmente culpadas. Tanto nas parábolas que fundam a cultura ocidental, quanto nos mitos africanos ou ameríndios, elas aparecem como responsáveis pelo afastamento da divindade e pela origem da morte. Culpa de Eva, Adão ter comido do fruto proibido e nos tirado do paraíso. Isso porque, segundo o olhar masculino que narra os mitos, as mulheres são excessivas. Elas desejam demais, expõem-se demais, falam demais, riem demais.

Esse excesso não é nada conveniente a sociedades patriarcais - a não ser, claro, entre quatro paredes, ou em determinados lugares onde a perversão é permitida. No Rio de Janeiro do século XVIII, por exemplo, dois terços das vítimas presas pela Inquisição eram mulheres. Quase todas acusadas de excessos, se não de bruxaria, do corpo. Os homens, seus governos e suas religiões não suportam que as mulheres desejem e, menos ainda, que sejam donas de seus corpos. Por isso, numa cela inquisitorial, numa fogueira, numa cela moderna, com violência doméstica ou estatal, a ideia sempre foi tirar de nós a única coisa que é realmente nossa: o corpo.

Dando um salto na história e chegando até ao momento em que a única presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, foi vítima de um golpe e obrigada a largar o governo, logo nos lembramos da imagem daquela mulher guerreira, que havia lutado contra a ditadura militar, presa e torturada, sendo substituída pela imagem que um Congresso repleto de abutres almeja de nós: a bela, recatada e do lar, Marcela Temer, esposa do vice que usurpou a República do Brasil. Os homens que há séculos constituem a engrenagem da nossa política não suportaram que uma mulher governasse o país. Tiraram à força o que a população havia lhe entregue com votos.

O que eles não imaginavam é que, na mesma altura em que Dilma foi impedida, começava a surgir nas ruas e nas redes um movimento feminista que só iria crescer. Houve a Marcha das Vadias, a Marcha das Mulheres contra Temer. Fomos para a rua berrar que queríamos a nossa presidenta de volta, que não queríamos aquele Congresso misógino. Fomos para a rua berrar contra a cultura do estupro, a violência doméstica, o feminicídio. Fomos para a rua berrar pelo direito ao nosso próprio corpo ("meu corpo, minha vida"), pela descriminalização do aborto. Fomos para a rua berrar por direitos iguais entre homens e mulheres e pelos mesmos salários.

Esqueçam a conceção cristalizada no tempo e no preconceito do que é feminismo. Ser feminista não é ter pelos em baixo do braço (embora você os possa ter, se assim o desejar), não é odiar os homens nem querer uma inversão social: que a partir de agora as mulheres mandem no mundo, os homens se calem, ganhem menos, apanhem de nós e nos obedeçam. Não há cliché pior da ignorância do que esse. Feminismo é querer o mesmo para homens e mulheres. Os mesmos direitos, o mesmo respeito, as mesmas oportunidades, o mesmo domínio sobre o corpo. Feminismo é criar ondas de solidariedade em hashtags como #agoraéquesãoelas, #meuprimeiroassédio, #mexeucom umamexeucomtodas, #metoo, para que as mulheres possam contar suas histórias de abuso, para que sejam ouvidas com respeito, para que seus relatos mudem o mundo.

Uma transformação tão radical não se faz da noite para o dia. Era óbvio, portanto, que o poder estagnado em valores reacionários não suportaria essa potência advinda das mulheres. Assim, no dia 14 de março deste ano, Marielle Franco, mulher, negra e gay, vereadora do PSOL com a quinta maior votação do Rio de Janeiro, foi assassinada a tiros quando voltava de um evento chamado "Jovens negras mexendo as estruturas". A estrutura não quer que mulheres se mexam. Muito menos negras. E Marielle, antropóloga de formação, lutava pelos direitos humanos, era crítica à intervenção militar nas comunidades carentes e denunciava abusos de autoridade policial contra seus moradores. Sua força - de se expressar, de olhar para o outro, de ajudar o outro - era coisa a mais para o status quo.

A morte de Marielle é de uma dor imensa para seus parentes, sua mulher, seus amigos e para nós, que acreditávamos na sua luta. Mas eles - os culpados pelo crime, até hoje desconhecidos - não imaginavam que os tiros não seriam suficientes para calar uma voz dissonante. Marielle continua falando através das mulheres que ficaram - e dos homens que estão ao seu lado, e que são cada vez mais. Há muitas formas de se estar vivo. O legado político é uma delas.

Muitas mulheres se engajaram neste ano de 2018, não apenas como candidatas, mas também como eleitoras. No atual momento, apenas 10,5% do Congresso brasileiro é feminino. Depois desses anos de manifestações, estamos mais conscientes de que para mudar a estrutura machista da sociedade precisamos de representantes femininas no governo, de mulheres que defendam os nossos direitos e assinem as nossas pautas. Dessa consciência, surgiram movimentos como o Me Representa, o Vote Nelas e o Campanha de Mulher, que apresentam candidatas comprometidas com essa luta. O voto, numa democracia, ainda é a nossa maior arma, e é com ela que faremos a diferença neste momento tão difícil, tão sombrio para o Brasil. O momento em que tanta gente perdeu o medo de se dizer a favor da ditadura, da tortura e contra a diversidade, marca daquilo que nos constitui como brasileiros.

Jair Bolsonaro tornou-se o representante maior da misoginia, da homofobia e do racismo. Sem qualquer constrangimento, profere ao vivo afirmações como: "Melhor um filho morto do que um filho gay"; "Meus filhos não correm o risco de namorarem negras, porque foram muito bem criados" e "Ela não merece ser estuprada porque é muito feia". Defende a diminuição da licença maternidade e salário menor para mulheres. Defende o livre porte de armas e faz apologia da tortura. Este, o perfil de quem aparece em primeiro lugar nas intenções de voto para presidente do Brasil.

E de repente as mulheres, que ele tanto odeia, surgiram como a salvação possível da nossa democracia. Num cenário político completamente esvaziado de valores morais, em que a violência reina soberana, as mulheres estão conseguindo definir o único elo dessas eleições. As hashtags #elenão #elenunca e #mulherescontra bolsonaro são o que tem unido as divergências em torno de um projeto comum. Um projeto que diz: não queremos voltar atrás, não queremos um país retrógrado, não queremos uma ditadura, não queremos um presidente carregado de ódio, que menospreza as mulheres. O movimento viralizou, ganhou capas de jornais e revistas do mundo inteiro e a adesão de celebridades internacionais como Dua Lipa e Madonna. Em menos de duas semanas, a página "Mulheres unidas contra Bolsonaro", apesar de ter sido hackeada, reuniu três milhões de seguidores.

Se tudo der certo, Bolsonaro enfim terá razão para odiar as mulheres: é a nossa luta que poderá impedir o advento do fascismo no Brasil. Quem quer direitos iguais para homens e mulheres quer mais democracia, não menos. A revolução agora é feminina.

Escritora brasileira, vive em Portugal.