Ronaldo de borbulhas e sem saber lidar com a fama

A jornalista Catarina Carvalho entrevistou um Cristiano Ronaldo bem diferente em Manchester, dias antes da estreia pelo United.

Andei à procura, e nada. Não, não tirei uma selfie com Cristiano Ronaldo quando o entrevistei para o Expresso, acabado de chegar a Manchester, no verão de 2003. Nem fiz a velha versão das selfies, quando um jornalista fascinado pedia ao fotógrafo que o acompanhava que lhe tirasse uma foto.

Eu era isso: uma jornalista fascinada. É por isso que não ter tirado uma foto com ele diz mais sobre Ronaldo do que sobre mim. Ele já era uma estrela. É verdade que tinha 18 anos, muitas borbulhas, dentes tortos, era até bastante franzino - lembro-me de reparar na largura ínfima dos seus quadris, e de mais tarde me ter surpreendido com o trabalho dos ginásios onde, diz-se, passa a vida. Tinha acabado de sair da incubadora do Sporting. Mas estava a chegar a um dos mais importantes clubes do mundo, o Manchester United, na maior transferência feita até essa altura de um jogador da idade dele. E tinha, claramente, consciência do que valia - e ia valer. Manteve a distância, não foi simpático e fez aquela cara de "estou aqui para jogar, não para conversar". E eu, cortei-me e não pedi a fotografia que havia de fazer inveja aos meus amigos.

Sem recorrer à consulta do texto que saiu na revista do Expresso não consigo lembrar qualquer coisa notável que tenha dito, mas lembro-me de ter sido uma entrevista difícil, numa mesa de pedra do jardim do hotel onde estava hospedado, nos arredores da cidade de Manchester. Ele de um lado da mesa, eu do outro. Eu a inventar perguntas, ele a fugir das respostas, sem sorrisos. Desconfortáveis, ambos.

Ronaldo estava rodeado da equipa do seu já empresário, Jorge Mendes, que lhe trouxera, nessa manhã, um saco preto cheio de cartas e coisas que os fãs lhe tinham enviado. Ronaldo abriu o saco e tratou com sobranceria um boné e uma t-shirt para assinar. Atirou-os para o lado - num gesto que achei chocante e de que me lembro sempre que Ronaldo mostra uma outra e muito diferente face, de respeitador dos fãs, de carinhoso com as crianças. Acho que nessa altura, Ronaldo era uma estrela que ainda não se tinha habituado a sê-lo. Vida fora, aprendeu. E terá tido os melhores mestres. A começar por Alex Ferguson, de quem tive que receber aprovação para aquela entrevista, marcada e desmarcada três vezes. Mais tarde, quando entrevistei a mãe, D. Dolores, pensei até que ponto que aquela mulher despachada e doce teria sido influente na carreira daquele jogador, transformando aquele menino mimado com quem me encontrei há 15 anos num homem decente que adoraria entrevistar.

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