Ronaldo. A primeira camisola 7 é minha

A jornalista Rita Ferreira conta a viagem de carro do hotel de Manchester até Old Trafford, no dia em que Cristiano Ronaldo assinou pelos Devils. Ia ao lado dele.

Pouca gente sabe e não há grandes provas, para além da minha palavra e da memória (difícil de encontrar) de um funcionário da loja oficial do Manchester United que, a 12 de agosto de 2003, imprimiu a primeira camisola com o nome Ronaldo e o número 7 nas costas. Nesse dia em que Ronaldo se tornou jogador dos Devils fui à loja, comprei uma camisola e pedi: "Ronaldo, number seven." O funcionário abriu os olhos: "Seven? Are you sure?" Sim, tinha a certeza.

No dia anterior, em reportagem para a TVI em Belfast, fui interrompida. "Apanha o primeiro avião para Manchester, o Ronaldo vai assinar", dizia a mensagem. Acabei por ficar no mesmo hotel de Ronaldo, a uns 40 quilómetros de Old Trafford, em zona rural. Na manhã de dia 12, partilhámos carro. No banco de trás, eu, o repórter de imagem Bruno Vinhas e Cristiano Ronaldo. No banco da frente, Jorge Mendes.

Era agosto, chovia e estava frio. Ronaldo olhava pela janela até que Mendes lhe diz que ali costuma ser assim. Ele perguntou: "Ai é?" E assim ficou, pouco preocupado com a meteorologia.

O carro deixou-nos a uma distância higiénica do estádio onde ia assinar contrato e dar uma conferência de imprensa ao lado de Sir Alex Ferguson e do brasileiro Kleberson. Este era na verdade a estrela daquele dia de contratações e sobre Ronaldo a imprensa britânica queria apenas saber a razão de um desconhecido de 18 anos ter custado tanto. Ferguson riu-se e anunciou que ia dar a Ronaldo o mítico 7. Bruaá na sala!

Seguiram os três para o relvado, tiraram fotografias com as camisolas do clube já vestidas - largueironas, que naquela altura Ronaldo era franganote.

A informação era de que no dia seguinte Ronaldo voltava a Portugal, para regressar mais tarde a Manchester. Na manhã de quarta-feira, encontrámo-nos no pequeno-almoço do hotel, já sem outros jornalistas.

- Vais embora? - perguntei.

- Não, vou treinar - respondeu ele.

- Vais treinar? Então se calhar no sábado já jogas - disse, entusiasmada.

Parou de prato na mão, olhou para mim, fechou a cara e, num misto de timidez e maus fígados, afastou a hipótese: "Alguma vez..."

Não o vi mais em Manchester. Voltei para Lisboa. No sábado vesti a camisola, liguei a televisão e assisti à estreia.

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