"Não tenham medo de ser autênticos". A dança Kaizen ajuda à (re) descoberta

Kwenda Lima nasceu em Cabo Verde há 40 anos e estudou para engenheiro aeroespacial. Mas não é isso que faz. Dedicou-se antes à dança e à meditação e, em 2003, criou o kaizen dance. Uma espécie de engenharia, sim, mas do interior

Kwenda Lima poderia eventualmente ser hoje um dos muitos engenheiros aeroespaciais da NASA. Foi para isso que estudou, em Lisboa, depois em Londres. Gosta da área, adorou o curso, mas não era isso que, dentro de si, sentia que queria fazer nesta vida. Dança desde que se conhece como gente: kizomba, afro-tribal, afro-contemporânea, danças tradicionais de Cabo Verde, país onde nasceu, há 40 anos. Entre vários outros estilos. E muito cedo percebeu o poder da dança, do movimento do corpo como veículo para chegar à mente. Assim, criou, em 2003, o kaizen dance, uma espécie de meditação ativa que acusa inspiração em vários tipos de danças, de ritmos, de músicas, de culturas e até mesmo de religiões.

"Kaizen é uma palavra japonesa, muito usada nas empresas, que significa algo que está em constante evolução. Nós, realmente, estamos nesse processo de constante evolução. Acho que essa humildade do ser humano, que está sempre a aprender, a renovar, é interessante. Nunca vais sentir que chegaste a um ponto de estagnação. Isso faz-me sentir que estou sempre numa evolução comigo mesmo. É isso o kaizen dance", explica ao DN no espaço Art Kaizen, que abriu há cerca de um ano em Lisboa. Mais propriamente na Rua do Açúcar, no Beato, antiga zona de fábricas que agora renasceu como uma das mais fervilhantes da capital. Teve uma segunda oportunidade. Como acontece na própria vida. Se vontade para isso houver.

Está quase a começar uma aula. "É um trabalho que depende muito do grupo que tenho. Às vezes tenho um grupo que sinto que tenho que fazer um trabalho muito físico, porque são pessoas muito mentais, então o trabalho físico vai cansar a mente, para depois deixar a semente. Nós serenamos, eu passo uma mensagem, que pode ser muito à volta do egocentrismo, da coragem, do medo, do medo de receber, de dar, a relação com o dinheiro, com o material em si. São mensagens muito fortes que estão na memória do corpo. Se tu vens logo com a mensagem, a pessoa bloqueia, fecha-se completamente, vai-se embora. Mas se utilizarmos o cansar o corpo, é como se tivéssemos uma terra que é rija, mas que depois de lhe deitarmos água em cima ela amolece e já conseguimos pôr a semente e, aí, ela brota. Aqui é exatamente a mesma coisa."

Cristina Rodrigues, de 60 anos, bancária reformada de Lisboa, é uma das alunas. Começou a vir pelo lado da dança, o isco, como lhe costuma chamar Kwenda Lima. Sempre dançou, kizomba, salsa, bachata, em escolas, em festas. O lado da meditação é que foi a experiência nova. "Vim através de uma amiga e gostei tanto que já trouxe a minha filha, a minha irmã e a minha prima", conta, entre risos ao DN.

"Estou a trabalhar coisas em mim, que ainda não consegui ultrapassar, sinto uma evolução gradual. É uma tomada de consciência sobre mim própria. Tinha necessidade de trabalhar em mim porque na minha vida sempre fiz tudo mais a pensar nos outros." Quanto aos movimentos, alguns são muito exigentes, sim, "mas cada um faz ao seu ritmo e no seu timing, como diz o Kwenda Lima. Ele é uma pessoa fantástica com a qual sentimos paz".

A aula, até agora semanal, mas que depois de setembro poderá passar a trissemanal, começa com todos deitados no chão. Os sapatos não entram, ficam à porta. O vestuário é confortável, de acordo com o que cada um quiser. Há quem vista calções, leggings, calças largas, vestidos, etc... Uns entregam facilmente o corpo ao chão, mas há resistentes, de olho aberto aqui e ali, vigiando o que se passa em redor.

É o controlo. Tão comum, tão inútil e tão difícil de desprogramar. Ao som dos mais variados ritmos, Kwenda Lima vai orientando os movimentos do grupo que, naquele dia, incluiu pessoas de origem portuguesa, espanhola, alemã, russa, romena, francesa ou inglesa. Os movimentos, como o próprio explicou, são uma grande mistura.

"Muito tribal, do lado da África, da Ásia ou da América Latina. Podem ser movimentos xamânicos, de danças tradicionais, porque algumas foram construídas por causa de um momento em particular, como lutas pela terra, então isso faz que haja já uma energia que está, a partida, conectada com essa dança. E quando trago essa dança, o corpo abraça-a, vai a essas memórias e elas são trabalhadas."

Se todo o trabalho tiver resultado, há pelo menos duas reações possíveis: as pessoas voltam ou desistem. O que não tem mal. Significa que ainda não estão prontas para iniciar o seu processo. "Pôr uma pessoa em confronto consigo própria é a coisa mais difícil de fazer com alguém que não esteja bem consigo próprio. A pessoa vai fugir. Vai tentar preservar-se. É mais fácil ela viver um bocadinho dos outros do que confrontar-se com ela própria e enfrentar as oportunidades de evoluir. Não é fácil. Leva-te a trabalhar bastante. Nós, nesta cultura em que vivemos, não fomos educados, desde crianças, a estar sozinhos, a receber o vazio. Fomos sempre educados a preencher o vazio, e por isso as pessoas nunca estão satisfeitas, querem sempre mais. Ter mais. E nunca nada chega", constata o professor cabo-verdiano, que esteve em Londres entre 2003 e 2010.

Porquê o medo de si próprio? "A vida é muito acelerada, passa-se muito no domínio da ação, do fazer e do ter, não do ser e do sentir", diz Sofia Cristóvão, de 48 anos, psicóloga e assistente administrativa. A dança, para si, é mais do que uma coisa lúdica. "Tem um lado muito importante de autoconhecimento. Eu uso a dança para isso." E o que faz aqui uma psicóloga? "Para trabalhar as outras pessoas temos de saber trabalhar-nos a nós mesmos".

A tarefa não é fácil. É para os dispostos. Pois é preciso pôr em perspetiva tudo aquilo com que fomos programados, desde crianças, na nossa família, na nossa educação, na nossa sociedade, na nossa cultura ou religião. Mais do que saber o que se quer, pode começar-se pelo inverso, ou seja, saber aquilo que não se quer. "No teu processo começas a fazer uma triagem. Não existes porque o outro existe. É como se, de repente, fosses enchendo aquilo que tu és. A espiritualidade é parte de nós, do corpo, somos um só. Toda a gente é espiritual mas nem toda a gente está num estado de consciência disso. É como a água: ela existe, mas pode estar no estado sólido, líquido ou gasoso. Então a espiritualidade também é assim. Para mim, a meditação é dançar, é estar presente no que estou a fazer. Eu estou contigo, o facto de estar focado em ti e não estar aqui só a cinquenta por cento, eu estou numa meditação, no presente. Não me sento para meditar. Vou-me tornando uma meditação. Se não é como se dividisse a minha pessoa. É o tu seres a mesma pessoa no trabalho, numa discoteca, em qualquer sítio, a mesma pessoa, com os mesmos valores. Não me vou mudar consoante o grupo de pessoas em que estou inserido. Sou a mesma pessoa e isso é a minha essência."

Rita Nunes, de 30 anos, estudante de Direito, sempre sentiu necessidade de trabalhar sobre si própria pois, diz, sentia muitos bloqueios. Partilhas de reiki, meditação guiada, medicina convencional. Foi fazendo experiências. "Mas nunca senti uma identificação tão grande como aqui no kaizen dance. Desde que venho aqui deixei de impor a mim própria aquilo que a sociedade de onde venho queria que eu impusesse. Sinto-me livre e em paz para ser o que quero ser. Há muito percebi que problemas de saúde que tinha eram de origem emocional", conta ao DN, ultrapassando uma certa timidez.

A aula de kaizen dance passa por várias fases. Quietude, movimentos bruscos, aleatórios, buscando amplitude de espaço, depois contidos, correria, abraços, a dois, em grupo, risos, vontade de chorar. Mensagem. Reflexão. Apesar de Kwenda Lima funcionar como o farol para quem os alunos olham se estiverem perdidos em qualquer altura, por vezes ele para, deixa-os fluir, sente as energias. Observa. Para depois agir. Para saber o que vai dizer. Transmitir.

No final, acabam abraçados ao som de Snatam Kaur, cantora americana criada na tradição sikh e de kundalini yoga que atuou em Lisboa em março. Ong Namo Guru Dev Namo é o mantra que canta. Significa qualquer coisa como: "Saúdo a energia universal e o caminho divino que conduzem da luz à escuridão." Segue-se um momento de partilha. "Ser autêntico é a coisa mais difícil de fazer e a mais bonita. Não tenham medo de ser autênticos", desafia Kwenda Lima, que acredita nunca ter deixado de ser engenheiro. "Isto para mim é uma engenharia do interior, a capacidade de tu te (re)programares." E conseguires responder à pergunta: "Quem és tu?"

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.