Pode aprender-se a rematar como Ronaldo? Os craques também se ensinam

Cristiano Ronaldo é o ídolo da maioria destes minicraques. Na Escola Hernâni Gonçalves, mais de 600 miúdos vão apurando a técnica e alimentando o sonho. (Artigo publicado originariamente no dia 25 de setembro de 2018)

Levanta a cabeça", "olha para o jogo", "bola perto do pé"... Num fim de tarde soalheiro, o campo principal da Escola de Futebol Hernâni Gonçalves, no Porto, está cheio de crianças que se espalham por grupos ao longo do relvado. Num deles, ouvem-se as instruções do professor Rui Pacheco, que em 2000 fundou a escola, juntamente com o antigo preparador físico do FC Porto que lhe dá nome.

Também ele um antigo treinador da formação portista, Rui Pacheco continua o legado do popular "Prof. Bitaites" - como ficou famoso Hernâni Gonçalves, falecido em 2014 - e gere uma escola de futebol que movimenta mais de 600 crianças. Neste fim de tarde, há várias dezenas delas em ação. A maior parte veste a cor laranja da academia, mas também se veem muitas camisolas dos ídolos preferidos de cada um. Há Zidanes, há Dybalas, camisolas do FC Porto, uma ou outra do Barcelona e, claro, vários números 7, sejam do Real Madrid (ainda) ou da seleção nacional.

Cristiano Ronaldo é o modelo mais comum para estas crianças, admite Rui Pacheco, de 61 anos e com mais de 30 na formação. A probabilidade de algum vir a seguir o trajeto do ídolo é muito reduzida, naturalmente. "90% dos miúdos que estão aqui dizem que querem ser jogadores de futebol no futuro. E acho bem que digam. A vida é feita de expectativas e não devemos estragar esses sonhos. Mas também devemos avisar os meninos, e os pais, que o funil vai ficar muito estreitinho e são muito poucos os que vão lá chegar. Se destes 600 um ou dois chegarem a alto nível já é muito bom", refere.

Dantes, os miúdos jogavam na rua e, depois, quando vinham para os clubes já jogavam muito bem.

Com 8 anos, o Pedro é um desses meninos que se inspiram no capitão da seleção nacional. Inscreveu-se no ano passado, motivado pelo exemplo de alguns colegas de escola, e "tem evoluído bastante", nota, do lado de fora do campo, o pai. "Curiosamente, ele até nem gostava muito de futebol quando era mais pequeno, mas como na escola os colegas jogavam todos e ele não queria ficar de fora, começou a ver vídeos, a treinar, a aperfeiçoar-se", conta. Agora, "é obstinado".

Percebe-se o empenho do Pedro e dos outros miúdos a cada exercício proposto por Rui Pacheco. Um deles consiste precisamente em recriar a famosa "pedalada" de Cristiano Ronaldo, um pé a passar por cima da bola e o outro a desviá-la para o lado. Aqui, a ideia é fomentar a criatividade e apurar a paixão dos pequenos pela bola, recuperando os fundamentos do futebol de rua. "Dantes, os miúdos jogavam na rua e, depois, quando vinham para os clubes já jogavam muito bem. Nós aprendemos muito por tentativa-erro e, quando temos alguma liberdade e oportunidade para tocar muitas vezes na bola, aprendemos mais", explica o professor.

Como num trajeto escolar normal, a aprendizagem "faz-se por etapas", aponta Rui Pacheco: "Estipulamos conteúdos programáticos para cada etapa. Não ensinamos tudo ao mesmo tempo, eles não têm capacidade para isso. É como na escola. Começam com o a, e, i, o, u até chegar à universidade." Na sociedade tecnológica atual, tudo começa por uma "alfabetização motora". Isto é, "ensinar os meninos a brincar, correr, saltar".

Depois, vem aquilo a que podemos chamar o "a, e, i, o, u" do futebol. Rui Pacheco explica: "É saber receber a bola, passar, conduzi-la, rematar, tentar fazer um drible e, depois, saber jogar minimamente em equipa, fugir da fase de aglomeração. Se der uma bola a um grupo de crianças e fizer um jogo, vê que vão todas atrás da bola. E uma fase inicial da aprendizagem é descentrar a atenção sobre a bola. Dar-lhes algumas noções espaciais."

O feedback interrogativo

Os exercícios que Rui Pacheco introduz no treino vão ilustrando isso mesmo, até chegar o momento pelo qual as crianças mais esperam: um jogo de cinco contra cinco, com balizas pequenas. "Quanto mais jogadores e espaço a progredir, maior a complexidade para as crianças. Por isso, começam a aprendizagem do jogo em espaços pequenos", explica o técnico, realçando a importância destas "peladinhas". "O jogo é a essência fundamental da aprendizagem. É onde eles vão poder aplicar a tal tentativa-erro, como se fazia na rua."

A determinada altura, um menino tenta passar pelo meio de três adversários e perde a bola. Rui Pacheco interrompe: "Onde está o espaço?" A criança percebe e aponta para um colega mais atrás. O treino prossegue. "Nestes cenários, o que fazemos é o chamado feedback interrogativo: fazer a criança refletir sobre a solução. Eles aprendem muito melhor assim do que se for só a ouvir o treinador dizer que é assim ou assado."

Pensar o jogo. Quem pensa melhor o jogo tem maiores probabilidades de o jogar melhor. O que nunca se faz, garante Rui Pacheco, é "coartar a qualidade técnica e o improviso". Porque "isso é o que vai fazer a diferença no futuro", diz. "Se um menino driblar de uma baliza à outra e marcar golo, vai voltar a fazer isso a seguir. E não lhe vamos dizer para não o fazer. Não podemos coartar isso. Agora, se fizer isso e perder a bola três ou quatro vezes seguidas, vamos ajudá-lo a pensar sobre se essa é a melhor solução."

Nesta fase, os petizes ainda vão rodando por todas as posições ao longo dos jogos, testando as apetências de cada um. A especialização chegará mais tarde (entre os 12 e os 16 anos). Porte atlético, resistência e velocidade são aspetos que hão de contribuir para a escolha. "Há perfis-tipo para cada função", diz Rui Pacheco. Mas, para já, "quase todos querem ser avançados". Querem a bola.

Alguns entendidos dizem que para se ser jogador de alto nível tem de se ter pelo menos dez mil horas de prática

O treino acaba com uma sessão de penáltis. Na primeira série, fica tudo à livre escolha dos miúdos. Na segunda, Rui Pacheco dá recomendações: "Pé de apoio junto à bola", "como a baliza é pequena, rematar com força, com o peito do pé", "olhar para a posição do guarda-redes antes do remate". Os resultados melhoram. No fim do treino, as crianças saem cansadas mas satisfeitas. Como o Pedro. "O que gostei mais foi do jogo", diz, antes de ir para casa com o pai.

Rui Pacheco não arrisca dizer se algum destes meninos vai dar jogador. "Antes dos 15/16 anos não conseguimos predizer com muita certeza. Isto é como os pianistas, os que praticarem mais serão mais virtuosos. A maioria dos que se destacam mais cedo não jogam só aqui. Jogam em casa, na escola, na rua, na praia, em todo o lado. Alguns entendidos dizem que para se ser jogador de alto nível tem de se ter pelo menos dez mil horas de prática."

Para já, para o Pedro e para os amigos, ainda todos os sonhos são possíveis. Mesmo o de vir a ser como Ronaldo.

(Artigo publicado originariamente no dia 25 de setembro de 2018)

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