Plano B: Brasil?

Brasil? O quintal da frente. Conheci-o, garoto, da minha varanda, em Luanda. Factos, homens e mulheres, mistérios e sabores. Adoniran, o filho de italianos analfabetos, que me deu o Trem das Onze, palavras mais em português não podiam ser. A muamba que eu comia com a mandioca que o Brasil inventou para a minha terra. Estas terras já estiveram juntinhas - Luanda (Angola) e Porto Galinhas (Brasil), ambos no paralelo 8º 50" 13"" S. Quando o supercontinente Gondwana começou a estilhaçar-se na América do Sul e em África, no Jurássico, se estes se afastaram direitinho, 160 milhões de anos depois eu conhecia bem os meus vizinhos olhando em frente. Lido? Com o Jorge, amado como diz o António Araújo nesta edição, páginas à frente. Foliado? Como conta o Ruy Castro, noutra página. Invejado? Como não se diz em parte nenhuma de Rubem Braga, porque quem escreve não pode senão calar-se perante o maior. Brasil do túnel Rebouças, Rio de Janeiro, do engenheiro André Rebouças, negro que foi encanar água a Luanda depois de o fazer no Rio. Brasil disto e daquilo, tanto e tão nosso, tão mais do tão pouco que pode vir a ser para a semana... Brasil, em imagens e legendas, enorme e incerto.

Santos Dumont

O brasileiro Santos Dumont, em 1901, deu uma volta à Torre Eiffel, com um dirigível a motor. Os americanos irmãos Wright, em 1903, fizeram um voo controlado. Logo, os americanos inventaram a aviação. O Brasil será um país do futuro quando souber impor o passado.

1958

Feliz 1958 - O Ano Que não Devia Terminar, do jornalista carioca Joaquim Ferreira da Silva, é um livro. É um Je Me Souviens, de Georges Perec, que foca num ano o que o francês estende por uma geração. 1958, o ano em que o Brasil acreditou, inventava-se Brasília, a seleção canarinha era, enfim, campeã mundial e João Gilberto tocava, de Tom Jobim e Vinicius, Chega de Saudade. Sessenta anos depois, 2018, a saudade arrisca-se a ser insuportável.

Millôr Fernandes

Millôr passou a vida a fazer frases. Só num livro, A Bíblia do Caos, tem 5142. Cada frase, cada uma, para ler, pousar o livro e dias depois voltar a outra. Está bem, deixo aqui uma: "O pior cego é o que quer ver."

Carmen Miranda

Maria do Carmo nasceu em Marco de Canaveses. Com 1 ano tornou-se carioca, passou a chamar-se Carmen Miranda e, aos 30, com uma canção de Dorival Caymmi (O Que É Que a Baiana Tem) e um ananás virou baiana e, logo a seguir, em Hollywood, tornou-se a brasileira mais famosa do mundo. Maria do Carmo desapareceu na paisagem, como é próprio de tantos portugueses, foi de onde estava.

Martha Rocha

"Quando ela passa/ O mundo inteirinho se enche de graça", escreveu Vinicius, em 1962. Umas das receitas já fora apresentada em 1954, quando Martha Rocha concorreu a Miss Universo. Segundo lugar, não o justo, porque os americanos desgostaram-se com 5 cm a mais nas ancas. O universo não estava preparado para a verdade.

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839. A mãe, lavadeira açoriana, o pai, filho de escravos. O mestiço Joaquim Maria casou-se, em 1869, com uma burguesa do Porto. Então, mãe branca e mulher branca, século XIX. A tão desejada colonização holandesa poderia ter sido muito melhor, OK, mas um senão é certo: não teria acontecido Machado de Assis, o maior escritor brasileiro.

Chorinho

Chorinho é o jazz que nasceu no Rio de Janeiro. É improvisação de pobre que do pandeiro faz um sofisticado saxofone. Calculem, então, o que é o chorinho quando Pixinguinha pegava no seu saxofone e fazia alguém tornar-se Jorginho do Pandeiro...

Teatro Amazonas

No meio da selva, o Teatro do Amazonas em Manaus. Um edifício soberbo, uma sala de ópera com o requinte das de Milão e Paris. Inaugurado em 1896, com o dinheiro da borracha. Alguém fugiu com as sementes da Hevea brasiliensis, a árvore-da-borracha brasileira que, afinal, também se dava (e mais barata) nos seringais da Malásia e do Ceilão. Serão necessariamente voláteis as esperanças brasileiras?

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.