Paulo Futre: um pé era mágico, o outro era cego

Paulo Futre era esquerdino e brilhava com a magia dos seus dribles em velocidade. Não gostava de jogar com ligaduras até começar a sofrer. Hoje até tem um osso fora do sítio... "É uma medalha do futebol", diz o antigo combatente dos relvados.

No futebol, os pés são essenciais. É com eles que o futebolista conduz a bola, faz o toque habilidoso que parece magia e, muitas vezes, o espetacular remate que dá o golo. Se o talento não se cria, a utilização do pé pode ser trabalhada. No futebol, e noutras modalidades, ser esquerdino é uma qualidade. Era o caso de Paulo Futre, o português que jogou em seis campeonatos - Portugal, Espanha, Itália, França, Inglaterra e Japão.

Apesar de ser destro, com o pé sempre preferiu o esquerdo. "Já era assim com o meu pai", diz o extremo formado no Sporting, conhecido pela velocidade e pelo drible. "Era direito e jogava com o pé esquerdo. Fui igual, no futebol era um esquerdino nato." Não é que os treinadores que o prepararam no início de carreira não o tenham tentado mudar. É importante para um futebolista, torna-o mais completo, saber jogar com os dois pés. "Tentava, mas era mesmo cego do pé direito. Melhorei um pouquito mas nunca consegui jogar bem com o direito. Jogava muito pela direita no campo, mas o meu estilo era ganhar a linha e cruzar com a parte exterior do pé esquerdo."

Como o método resultava, Futre não encontrou problemas em se afirmar no futebol. Teve uma carreira com muitos êxitos, sendo o primeiro grande título a conquista da Taça dos Campeões Europeus em 1987, pelo FC Porto. Mas assume que a importância que dava ao pé foi só consolidada ao longo da carreira. Nem sempre lhe deu grande relevo - apesar de ser, como reconhece, o membro mais importante para um futebolista. "Vais conhecendo melhor o corpo, o que podes fazer com o pé, mas as características já estão contigo."

Futre aprendeu pela prática como é doloroso não respeitar as exigências dos pés. Com as chuteiras a tapar, tudo parece saudável. Mas qualquer podologista pode explicar as mazelas que a vida de futebolista deixa. Desde as mais simples, como calos e bolhas, aos problemas nas unhas. Até às entorses e às frequentes fraturas. "Nos primeiros jogos como profissional não conseguia jogar com ligaduras. Os futebolistas jogam com os pés ligados, alguns com dois pares de meias, mas não me adaptava. Perdia sensibilidade, aquilo apertava e não gostava", descreve agora aos 53 anos, quase vinte depois de ter terminado a carreira.

"Tive uma lição com uma lesão que sofri num jogo pela seleção, de apuramento para o Europeu de 1984. Por isso não fui à fase final em França. Passei a jogar sempre com o pé ligado."

As chuteiras, hoje mais saudáveis do que há décadas, são importantes. Muitos jogadores usam números abaixo do habitual para ter o pé mais seguro, mais comprimido. "Nunca o fiz. Jogava sempre com o meu número, 41,5 ou 42." Os médicos não aconselham que os pés fiquem comprimidos, pois isso vai trazer consequências: não vão encolher mas ficam curvados. Além disso, as chuteiras apertadas irão provocar danos vasculares.

O pé do futebolista é um objeto frágil - por ser tão importante merece todos os cuidados.
O pé cavo é uma das consequências. Dedos em garra, calosidades sob a base do dedo grande, hematomas nas unhas, calcanhar com inclinação para fora e a perda de flexibilidade do peito do pé são características do pé do jogador profissional. "Há muitas pisadelas, pancadas nos tornozelos. Nas equipas há sempre muito cuidado, usamos muito gelo nos pés."

Uma das histórias do pé de Paulo Futre tem contornos dolorosos e remonta a 1987. "Fizemos a primeira mão nas Antas com o Dínamo de Kiev e no domingo seguinte jogámos com o Belenenses. Sofro uma entorse daquelas de cavalo. Fiquei sem jogar até ao jogo da segunda mão em Kiev, 13 dias depois. Em três dias, de segunda à quarta-feira do jogo, levei sete infiltrações de cortisona no pé direito. Para conseguir jogar. Entrei em campo com uma ligadura que parecia gesso. Ainda me lembro que foi no dia 22 de abril." O FC Porto venceu 2-1 em Kiev, o mesmo resultado que semanas depois conseguiu frente ao Bayern de Munique para se sagrar campeão europeu. Mas a história não terminou ali: "Acaba a época, aí uns dois meses depois, e vamos de férias. No primeiro dia, vou para a praia no Algarve. Adormeço ao Sol e acordo aos gritos. O pé estava todo queimado, vermelho. A cortisona é um veneno que fica, e tive que ir para o hospital."

Seguros nunca teve. "Naquele tempo não havia. Só quando joguei em Itália (1995) é que começaram a existir para o pé ou joelho.

Futre nunca foi operado a um pé e a maioria dos problemas foi sempre no mesmo. "É incrível, no pé esquerdo nunca tive uma entorse. Era sempre o direito, o de apoio, o mais atingido." De resto, ficaram mesmo marcas. "A medalha a que tenho direito no futebol está no pé direito, com um osso fora do sítio. As unhas também estão marcadas. E também havia o pé de atleta, nos balneários. Usávamos sempre uma pomada."

Seguros nunca teve. "Naquele tempo não havia. Só quando joguei em Itália (1995) é que começaram a existir para o pé ou joelho. Estava no AC Milan quando o Marco van Basten foi operado e deixou de jogar", lembra. Nas décadas de 1980 e 1990 era o pânico para um futebolista ser operado a um pé.

"A medicina evoluiu, mas no meu tempo quem levasse um pé à faca era quase sempre o fim da carreira. Lembro-me de que o Michel, meu rival no Real quando eu jogava no Atlético, adiou sempre uma operação a um pé. Temia o fim e conseguiu sempre evitar."

O receio de meter o pé foi coisa que Futre nunca teve. O pé é motivo para muitas expressões nos relvados, desde o pé-canhão ao pé-quente. E o deixar o pé: "Também havia, o pé ficava ali suspenso à espera do toque, da falta."

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