Quem se lembra do Clube Amigos Disney?

Não foi um sucesso imediato. Só a partir de 1950, com as revistas brasileiras, e depois, na década de 1980, com o programa de televisão Clube Amigos Disney, é que as personagens de Walt Disney conquistaram as crianças portuguesas.

É pouco provável que, em 1928, os portugueses soubessem que havia um rato a assobiar ao leme de um barco a vapor num filme chamado Steamboat Willie. As primeiras referências a Mickey em Portugal datam de meados da década de 1930 - ou seja, já depois do Óscar especial atribuído ao seu criador, Walt Disney. Em novembro de 1935 (ano em que também surgiu a revista O Papagaio, que iria editar as aventuras de Tintin) foi publicado um primeiro número da Mickey, com a chancela do jornal O Primeiro de Janeiro. Foram publicados 58 números durante pouco mais de um ano. Os primeiros tinham apenas oito páginas, depois a revista (chamava-se assim mas era em papel de jornal) passou a ter 16 páginas e custava um escudo.

De acordo com o blogue Quadradinhos Patópolis, que compila imensas capas de revistas da Disney publicadas ao longo de décadas quer em Portugal quer no Brasil, nesta revista foram publicadas "diversas tiras do Mickey (curiosidade: Robin dos Bosques era traduzido para Rubim dos Bosques), do Donald (curiosidade: o nome atribuído era Pato Donal) e do Lobão (Lobo Mau). Também eram apresentadas histórias de outros autores e editoras".

O falhanço do Rato Mickey

Nos anos 1950, surgiu uma nova revista Rato Mickey, desta vez publicada pela Agência Portuguesa de Revistas, a editora que em 1949 tinha lançado com grande sucesso a revista de banda desenhada Mundo de Aventuras, com heróis como Fantasma, Mandrake e Flash Gordon. É bom lembrar que nesta altura já tinha havido O Mosquito (1936-1953) e O Gafanhoto (1948-49), outras publicações bastantes populares dedicadas à banda desenhada. No dia 26 de Agosto de 1955 foi então lançado, com grande alarido, o primeiro número da revista semanal Rato Mickey, que trazia para Portugal as histórias com personagens da Walt Disney Productions, publicadas nos Estados Unidos pela editora Dell. E foi um falhanço. A revista durou apenas quatro meses.

"As sobras do inesperado insucesso foram tão grandes que a agência tomou a decisão de as vender por atacado alguns anos mais tarde. A Rato Mickey sofreu, assim, a indignidade final de ser apregoada pelas ruas de Lisboa a cinco ou a dez tostões", escreve o colecionador João Manuel Mimoso num texto publicado no blogue Inverso. E recorda: "Os meus pais compraram-me um número da revista mas o formato de continuação desinteressou-me imediatamente: estava a tentar ler histórias cujo início não conhecia, ou cujo fim me era negado. Alguns anos mais tarde já tinha aprendido a esperar com antecipação por um qualquer prazer inocente, mas aos 6 anos queria, como quase todas as crianças dessa idade, satisfação instantânea!"

Era também a Agência Portuguesa de Revistas que dominava o negócio dos cromos no país. Entre coleções dedicadas ao futebol e à história de Portugal, foram editados cromos com imagens dos filmes da Disney Branca de Neve e os Sete Anões (estreou-se em Portugal a 12 de dezembro de 1938, mas os cromos só chegaram em 1952) e logo a seguir Pinóquio (filme estreado em Portugal a 7 de outubro de 1940, os cromos foram vendidos em 1954), A Bela Adormecida (1962) e Bambi (1964), entre outros.

Disney com sotaque brasileiro

Nesta altura, as revistas da Disney só chegavam a Portugal através de importação do Brasil, onde eram publicadas desde 1950 pela editora Abril. Foi com elas que as crianças portuguesas aprenderam os nomes de personagens como o Tio Patinhas ou o Pateta, os miúdos reguilas Huguinho, Zezinho e Luisinho que nos ensinaram o que era isso de brincar de "gostosura e travessura", os Irmãos Metralha, o Bafo d"Onça ou o Mancha Negra.

Crianças como Pedro Cleto que aos 6 anos começou a ler a revista que chegava do Brasil com uns seis meses de atraso: "O meu pai sempre me incentivou a ler. E foi ele que começou a comprar a Mickey e me levou a gostar de BD", recorda o crítico e tradutor de banda desenhada que atualmente tem 54 anos. "A revista tinha muitas histórias do Mickey mas também de outras personagens da Disney. Eu gostava sobretudo das histórias do Mickey mais aventureiro, com o Bafo d"Onça e o Mancha Negra", lembra. "Mais tarde, descobri as primeiras histórias de Mickey, do tempo da Depressão, que eram publicadas em jornais para um público adulto. Interessa-me menos aquela fase em que há um certo aburguesamento do Mickey e ele ganha casa, carro, uma família. E é mais infantil."

Em maio de 1979 foi criada a Editora Morumbi, filial portuguesa da editora brasileira Abril, com o objetivo de publicar as revistas da Disney deste lado do Atlântico. A primeira revista mensal foi publicada em 1980 e era dedicada - como é óbvio - ao Mickey. Apesar de o conteúdo replicar o das revistas brasileiras, a capa era sempre original e lá aparecia a indicação "Edição portuguesa". Nos anos seguintes, houve almanaques dedicados ao Tio Patinhas, ao Pato Donald, ao Pateta. E foi assim que progressivamente as personagens deixaram de dizer "ôi" e passaram a dizer "olá".

Hoje em dia, depois de já terem sido publicadas por editoras como a Abril/ControlJornal e a Edipresse, desde 2013 que a Goody é a responsável por publicar em Portugal diversas revistas da Disney de origem italiana.

Na televisão e no cinema

Em 1979, o húgaro Laszlo Cebrian recebeu o convite para ser o representante da Disney em Portugal. Antes disso, já tinha sido o responsável pelo sucesso do Clube de Livros do Mickey, coleção de livros então editados pela Liber e distribuídos por correio. "Fui à Suécia para ver como é que isto dos livros poderia funcionar. E também fui à Disney, em Los Angeles, para ficar a conhecer muito bem a filosofia da empresa", lembra Cebrian.

A sua relação com a Disney foi-se tornando mais profunda até, em 1982, ser criada a subsidiária Walt Disney Portugal, de que ele foi presidente até 2005. Além de trazer de novo os filmes e séries da Disney para a televisão (de onde tinham sido "banidos" após o 25 de Abril, recorda), Laszlo Cebrian foi também o inventor do Clube Amigos Disney, o programa que ocupou as tardes de domingo na RTP entre fevereiro de 1986 e julho de 1989. O programa era inspirado no Clube do Mickey americano mas era muito diferente e mais diversificado do que o original. "Foi completamente inovador", lembra Cebrian, explicando que o formato foi depois copiado por outros canais de televisão europeus.

O programa não se limitava a passar desenhos animados. Com apresentação de Júlio Isidro e Manuela Sousa Rama, e com o patrocínio de várias marcas e uma parceria com a Morumbi, havia inúmeros passatempos com a participação de crianças de todo o país. "Foi um marco para uma geração", recorda Laszlo Cebrian, sublinhando que naquela altura a revista da Disney era "a mais vendida todas as semanas em Portugal". "A melhor aventura foram as duas viagens que fizemos à Disneylândia. Levámos 190 crianças, que foram sorteadas através de bilhetes postais, num avião fretado pela TAP, durante um fim de semana prolongado e com tudo pago. Tenho tantas histórias dessas viagens!"

Finalmente, em 1994, Laszlo Cebrian conseguiu convencer a Disney a dobrar um filme em "português de Portugal", em vez de apresentá-lo nos cinema na versão brasileira: foi o Rei Leão e foi "um sucesso estrondoso". "Não demorou muito para que todos os outros filmes de animação passassem a ser dobrados em Portugal", comenta, orgulhoso. "Diziam que nós não seríamos capazes de fazer bem a dobragem mas mostrei-lhes o contrário."

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