O que dizem os seus sapatos: Salazar era pudico, o marquês de Pombal, poderoso

Mais do que peça de conforto ou proteção dos pés, o que calçamos é historicamente sinónimo de estatuto. Andámos de época em época nos sapatos de alguns poderosos da história de Portugal.

Quem queria ostentar poder tinha os pés tapados. Com um pedaço de pele a envolver o pé ou - mais tarde - com sapatos bicudos. Ao longo da história da moda, uma narrativa visual conta também a história do calçado e de quem podia ter os pés cobertos.

O vestígio mais antigo de calçado na Europa tem 5500 mil anos e foi encontrado na Arménia. "A pele é o primeiro material a ser trabalhado. Fez-se tudo em pele, depois é que se evoluiu para o tecido", diz Sandra Rodrigues, designer de moda, atualmente a fazer investigação no IADE. Traz a Enciclopédia Histórica do Traje, de Albert Racinet, uma das bíblias de quem estuda estas áreas. Na ausência de estudos específicos sobre algumas figuras de poder da história de Portugal, socorremo-nos de imagens de época.

"Os primeiros sapatos não mudam muito. O primeiro tipo de sapato era de pele cosida. A base era sempre a mesma: uma pele mais grossa ou com madeira, para porem a pele à volta e tapar o pé", diz, acentuando que o sapato era para quem queria mostrar poder. "O calçado e os adornos foram as primeiras formas de ostentação, de estatuto."

Na época de D. Afonso Henriques (século XII), usava-se um sapato e a polaina, a proteger a canela, diz a investigadora. Este acessório, que podia ser de pele ou de malha de aço, justificava-se pela ação bélica do primeiro rei de Portugal.

"Na época dos Descobrimentos vai evoluindo em termos de forma para a frente. Quanto mais bicudo, mais estatuto tinha quem o usava", diz Sandra Rodrigues.

Na época de D. Afonso Henriques (século XII), usava-se um sapato e a polaina, a proteger a canela, diz a investigadora Sandra Rodrigues.

O chapéu era também um objeto valorizado no século XVI. Lembramo-nos de imediato do infante D. Henrique. Os sapatos alongados veem-se bem na escultura de Leopoldo de Almeida, no centro da cidade de Lagos.

"Por volta do século XV, um rei inglês que tinha o pé gordo disse "acabou-se o sapato bicudo". Não sabemos quanto tempo essa moda demorou a chegar cá. No século XVIII levou-se o salto do sapato ao extremo", prossegue. De pé em pé, chegamos o nosso marquês de Pombal - "que já não usava um salto muito exagerado". Verificamo-lo nos retratos oficiais de Sebastião José de Carvalho e Melo, sapato preto ornamentado com uma grande fivela dourada. As extremidades, representadas pelos sapatos, mas também pelos folhos que saíam debaixo das mangas dos casacos muito estruturados, com botões brilhantes, eram sinal de estatuto. "O poder é afirmado pelas extremidades, muito associado ao fálico. O pé, o peito, muito associado aos mecanismos de sedução da natureza. Como nos animais."

No século XVIII, as extremidades, representadas pelos sapatos, eram sinal de estatuto.

No Museu Marquês de Pombal está uma réplica do sapato do estadista, a partir de gravuras de época. Cidália Botas, coordenadora do museu municipal em Pombal, diz que os sapatos vinham de França, só mais tarde começaram a ser feitos em Portugal. A Revolução Francesa acabou com o salto alto no sapato masculino: "Quando a burguesia chegou ao poder, quem usasse salto alto era conotado com a monarquia", justifica Sandra Rodrigues. Passou para o feminino - mas isso é outra história.

O Botas

Quando caiu da cadeira no Forte de Santo António, no Estoril, a 3 de agosto de 1968, António de Oliveira Salazar tinha acabado de arranjar os pés. Fruto de uma lesão quando era jovem, o ditador tinha calos recorrentes no pé direito. Daí as sessões regulares de pedicura com o calista Augusto Hilário - de três em três semanas, segundo o jornalista Miguel Pinheiro apurou na sua investigação, vertida no livro A Noite mais Longa (ed. A Esfera dos Livros, 2014).

As botas de pelica que usava frequentemente valeram a Salazar a alcunha de Botas. Usava-as tanto e era tão controlado nos gastos até ao extremo que se pode ver um buraco na sola de uma delas, numa fotografia de 1933 tirada no Caramulo [à direita], ao lado do jornalista e responsável pela propaganda nacional, António Ferro. "O facto de o sapato ser mais subido, para a época, mostra que era pudico em relação aos pés. Uma bota tão fechada numa altura em que os homens usavam um sapato de atacador mais decotado... é um pouco, mal comparado, o tipo de sapato que vemos hoje no Papa Francisco...", diz Sandra Rodrigues.

Outra imagem do arquivo do DN em que se notam as botas de Salazar mostra o ditador a posar para o escultor Francisco Franco [no topo], em maio de 1936, sob o olhar do mesmo António Ferro. As botas são bem visíveis, mas só o rosto e expressão interessam ao artista. Desta construção da imagem resultou um busto com "cabeça fletida, pensativa e distante, num recolhimento devoto, quase místico", acentua Joaquim Saial (Estatuária Portuguesa dos Anos 30, ed. Bertrand, 1991) que completaria a estátua para a exposição de Paris, em 1937, em que o ditador surge de toga, não se vendo os pés. Quem o retratou com os pés bem evidentes foi o escultor Leopoldo de Almeida, numa estátua que esteve em Santa Comba Dão, sua terra natal.